Os verdadeiros motivos da obsolescência de componentes estar ocorrendo mais rápido do que nunca

Centenas de milhares de componentes eletrônicos são descontinuados todos os anos. Quais são os principais fatores que impulsionam as tendências de fim de vida (EOL) em 2026?

Os verdadeiros motivos da obsolescência de componentes estar ocorrendo mais rápido do que nunca

Destaques do artigo:

  • Embora a obsolescência de componentes seja amplamente aceita como um aspecto inevitável do ciclo de vida dos produtos, na década de 2020 os números de fim de vida (EOL) atingiram patamares inéditos.
  • Uma das principais forças que impulsionam a obsolescência de componentes é o ritmo acelerado do avanço tecnológico. Quando os principais fabricantes de chips do mundo desenvolvem novas tecnologias de semicondutores mais sofisticadas, chips mais antigos gradualmente caem em desuso, chegando ao EOL.
  • Grandes interrupções também podem desencadear eventos de obsolescência. Quando fabricantes enfrentam grandes disrupções, escassez e outros estresses significativos em suas cadeias de suprimentos, normalmente direcionam esforços para seus produtos mais lucrativos — enquanto descartam componentes que não trazem o mesmo valor.

No universo dos componentes eletrônicos, a obsolescência sempre foi um fator persistente de risco. O receio constante de um fabricante emitir uma notificação de descontinuidade de produção (PDN) para um componente específico afeta diretamente a continuidade produtiva, comprometendo componentes, produtos e projetos em andamento. 

Apesar de a obsolescência de componentes ser vista como um fenômeno natural do ciclo de vida dos produtos, os EOL da década de 2020 atingiram recordes. Em 2021, enquanto a pandemia de COVID-19 transformava as dinâmicas de oferta e demanda do setor eletrônico, o mercado registrou quase 530.000 componentes obsoletos. Esse número saltou ainda mais em 2022: mais de 750.000 componentes foram descontinuados, um aumento anual de quase 50%.

As tendências de EOL observadas durante a pandemia recuaram um pouco desde então: em 2023, aproximadamente 475.000 componentes se tornaram obsoletos, e números semelhantes foram vistos em 2024. Porém, mesmo assim, fabricantes atuam em um cenário onde os componentes não têm mais a mesma longevidade de antes, durando, em média, entre dois e cinco anos antes de serem descontinuados. 

Tudo isso levanta a questão: por que os componentes estão se tornando obsoletos muito mais rápido hoje do que há 10 ou 20 anos? 

Para responder a essa pergunta, conversamos com Bjoern Bartels, diretor-geral da AMSYS e referência em gestão de obsolescência. Embora alguns fatores já existam há décadas, eles se expandiram ou aceleraram nos últimos anos, elevando a taxa de obsolescência em todo o setor.

Avanço Tecnológico: Evoluções e Revoluções

Evolução Tecnológica

Uma das principais forças que impulsionam a obsolescência de componentes é o ritmo acelerado do avanço tecnológico. Quando os principais fabricantes de chips desenvolvem novas tecnologias de semicondutores, mais sofisticadas, chips maduros gradualmente perdem espaço, até serem descontinuados (EOL). Bartels define esse avanço — como menores tamanhos de wafer, eficiência energética aprimorada e maior desempenho — como “evolução tecnológica”. 

Revolução Tecnológica

O segundo, e mais drástico, caminho do progresso tecnológico é o que Bartels chama de “revolução tecnológica”. “É quando tecnologias existentes são completamente substituídas por novas”, afirma ele. Como exemplo, cita a mídia física: em cerca de vinte anos, desde o final dos anos 1980 até os anos 2000, passamos de VHS para DVDs e depois para Blu-rays, cada geração substituindo a anterior. “E hoje nem precisamos mais dessas tecnologias, porque tudo é streaming”, complementa Bartels.

Apesar de menos frequente que a evolução, a revolução tecnológica também ocorre no contexto dos componentes eletrônicos. Transistores substituíram válvulas nos componentes eletrônicos, e SSDs (solid state drives) tomaram o lugar dos HDs como principal hardware de armazenamento. Quando revoluções tecnológicas como essas acontecem, costumam provocar grandes — ainda que temporárias — ondas de obsolescência na cadeia de suprimentos de eletrônicos. 

“É quando tecnologias existentes são completamente substituídas por novas tecnologias."

Fusões e Aquisições

Fusões e aquisições são relativamente comuns entre fabricantes de chips e componentes. Somente nos últimos anos, diversos grandes players adquiriram companhias menores para ampliar portfólio ou incrementar competitividade em determinados segmentos. 

  • Em 2022, a Advanced Micro Devices (AMD) concluiu a aquisição da Xilinx — fabricante líder de produtos de lógica programável, incluindo FPGAs e Systems on a Chip (SoC) — por US$ 49 bilhões.
  • Em 2021, a Renesas Electronics comprou a Dialog Semiconductor por US$ 6 bilhões, ganhando uma série de produtos voltados para casas inteligentes e setor automotivo, incluindo circuitos integrados (ICs) de sinais mistos.
  • Em 2020, a Infineon Technologies adquiriu a Cypress Semiconductor por US$ 10 bilhões. Com isso, expandiu o portfólio de memória e também as soluções embarcadas para automotivo, manufatura industrial e eletrodomésticos inteligentes. 

Apesar de M&As beneficiarem quem as realiza, essas transações também consolidam o mercado global de componentes eletrônicos. Após uma fusão ou aquisição, o fabricante frequentemente busca reduzir redundâncias e sobreposições no portfólio, implementando consolidações que frequentemente resultam na descontinuidade de determinados componentes. Essas estratégias pontuais de reestruturação são um gatilho relevante para a obsolescência de componentes — especialmente no período logo após grandes aquisições no setor.

Grandes Disrupções

Quando se fala sobre o impacto da pandemia de COVID-19 no setor eletrônico e nos semicondutores, o foco geralmente recai na combinação entre alta demanda e oferta limitada. Mas esse raciocínio deixa de fora outro fator essencial, evidenciado pelo elevado número de EOL em 2021 e 2022. 

Priorização dos Produtos Principais

Quando fabricantes enfrentam grandes disrupções, escassez e outros estresses significativos na cadeia de suprimentos, tendem a priorizar produtos mais rentáveis — enquanto deixam de produzir os que trazem menos valor. Tudo isso decorre de uma mentalidade de escassez adotada em tempos turbulentos, explica Bartels. “Se terras raras ou outros materiais ficam mais difíceis de obter, as empresas direcionam esses insumos para os componentes de maior volume e margem”, diz ele. “E eliminam os menos lucrativos.” 

Seja por pandemias, conflitos geopolíticos ou desastres naturais, quando cadeias de suprimentos são pressionadas e o acesso a matérias-primas essenciais fica comprometido, os fabricantes tomam decisões difíceis sobre como alocar o estoque limitado de silício, germânio ou nitreto de gálio — para citar alguns. “Isso pressiona o modelo de negócios a ponto de a empresa decidir que certas linhas de baixo retorno não compensam mais”, diz Bartels. O efeito cascata dessas decisões internas é uma maior obsolescência de componentes em todo o mercado de manufatura eletrônica.

“Se terras raras ou outros materiais ficam mais difíceis de obter, as empresas direcionam esses insumos para os componentes de maior volume e margem."

ESG e Regulamentações Ambientais

O surgimento de importantes regulamentações ambientais nas últimas décadas também acelerou o ritmo de descontinuidade de componentes. A implantação do Registration, Evaluation, Authorisation, and Restriction of Chemicals (REACH), da Restriction of Hazardous Substances (RoHS) e a expansão da RoHS (RoHS 2), em 2013, provocaram aumentos temporários de obsolescência à medida que fabricantes encerravam linhas não conformes. 

Embora grandes regulamentações ambientais não entrem em vigor todos os anos, pequenos ajustes regulatórios também impactam a produção de componentes. Adições anuais à lista de Substances of Very High Concern (SVHC – Substâncias de Alta Preocupação), assim como novas diretrizes para restrição de PFAS, são exemplos de movimentos regulatórios menores que também impulsionam a obsolescência de forma mais pontual. “Regulações e mudanças regulatórias tornam itens obsoletos”, afirma Bartels. 

De-risking das Dependências da China

Com o aumento das tensões geopolíticas entre EUA e China nesta década, cresce o número de empresas americanas discretamente tentando transferir sua produção para fora da China. Esse movimento de “de-risking” já é uma estratégia consolidada em cadeias de suprimentos há alguns anos. Menos discutido, porém, é como o comportamento de sourcing China+1 pode provocar obsolescência de certos componentes. 

Como explica Bartels, existem fabricantes chineses de nicho que produzem grandes quantidades de determinados componentes para poucos clientes americanos. Se um desses OEMs dos EUA resolve não mais comprar da China, essa decisão pode representar metade da receita da fábrica chinesa — um número hipotético, segundo Bartels. Para compensar o déficit, “essa fábrica vai simplesmente fabricar outros itens”, levando rapidamente o componente cuja demanda caiu ao EOL.

Novos e Emergentes Requisitos de Cibersegurança

Outro fator que acelera o ciclo de obsolescência dos componentes são as exigências crescentes de cibersegurança. O aumento da sofisticação dos ataques cibernéticos está obrigando empresas de tecnologia a atualizar seus softwares com maior frequência. Desenvolvedores aplicam patches, implementam novos recursos de segurança e corrigem vulnerabilidades para se manterem à frente das ameaças globais. 

Essa postura proativa de cibersegurança sem dúvida beneficia consumidores e empresas, mas pode ser desafiadora para o hardware onde o software é executado. Basta pensar: se existe determinado firmware ou software para um hardware e surgem novas ameaças cibernéticas”, explica Bartels, “o software precisa ser atualizado, mas a nova versão pode não rodar em tecnologias antigas”. Em casos em que o software atualizado não é mais compatível com equipamentos antigos, os riscos de segurança não tratados tornam o hardware obsoleto. Para ilustrar, Bartels cita um exemplo pessoal, mostrando seu iPhone 11: “Terei que comprar outro até o ano que vem, porque o suporte acaba no próximo ano”, diz. Uma vez que as atualizações do sistema operacional não suportam mais o modelo, o produto se torna obsoleto em termos funcionais.

"Basta pensar: se existe determinado firmware ou software para um hardware e surgem novas ameaças cibernéticas, o software precisa ser atualizado, mas a nova versão pode não rodar em tecnologias antigas.”

Proteja sua empresa da obsolescência de componentes com a Z2Data

Embora o número de peças eletrônicas obsoletas varie de ano para ano, a tendência maior é de ciclos de vida cada vez mais curtos, sem sinais de desaceleração. O rápido avanço tecnológico, combinado com desde grandes aquisições até interrupções globais nas cadeias de suprimentos, vem desencadeando descontinuidades em todo o setor de manufatura eletrônica.

Mas as organizações não estão de mãos atadas diante desse cenário crescente de obsolescência. Empresas resilientes e focadas em recursos estratégicos podem contar com uma ferramenta de gestão de riscos na cadeia de suprimentos (SCRM — Supply Chain Risk Management) para lidar de forma eficaz com riscos de EOL. O SCRM da Z2Data oferece um pacote robusto de ferramentas para gestão de obsolescência, projetadas especificamente para esse desafio. 

  • Previsão de Ciclo de Vida: A Z2Data ajuda empresas a entenderem a linha do tempo de seus componentes com um algoritmo proprietário de previsão de ciclo de vida. O algoritmo do SCRM utiliza critérios como demanda de mercado, locais de fabricação e roadmaps tecnológicos para uma projeção confiável de quando um componente será descontinuado pelo fabricante. Em 2024, a precisão da ferramenta de previsão de ciclo de vida da Z2Data superou 90%.
  • PCN Management: A Z2Data oferece gestão completa de workflow para notificações de alteração de produto, incluindo a capacidade de classificar e priorizar PCNs conforme a urgência. Usuários podem criar fluxos personalizados dentro da plataforma, designando tarefas e responsabilidades para equipes diferentes com o objetivo de mitigar potenciais impactos de notificações de alteração.
  • Fusões e Aquisições: A equipe de pesquisas da Z2Data monitora todas as fusões e aquisições de dezenas de milhares de fabricantes e fornecedores globais de componentes eletrônicos. M&As são um gatilho crítico de obsolescência, e a equipe integra constantemente esses eventos às projeções de ciclo de vida, garantindo que os nossos forecasts de EOL reflitam os desenvolvimentos mais recentes do setor.
  • Dados de Mercado em Tempo Real: O banco de dados da Z2Data abrange mais de um bilhão de componentes eletrônicos, incluindo mais de mil categorias de commodities. A Z2Data utiliza inteligência artificial para monitorar continuamente sites de fornecedores e outras fontes confiáveis, fornecendo dados em tempo real sobre preços, disponibilidade, prazos de entrega e outros indicadores estratégicos. Todos os dados passam por verificação humana antes de serem integrados ao banco.
  • Workflows para Gestão de Obsolescência: Com os recursos incorporados da AMSYS, agora a Z2Data permite aos usuários implementar workflows baseados em risco de obsolescência. Componentes classificados como de alto risco de descontinuidade disparam fluxos imediatos, com equipes multifuncionais, planejamento de cenários e supervisão executiva. 

Com todas essas funcionalidades, sua organização pode tomar decisões mais inteligentes de projeto, compreender melhor o ciclo de vida dos componentes e agir estrategicamente diante de qualquer desafio de obsolescência. 

Para saber mais sobre a Z2Data e como nossas soluções de gestão de obsolescência podem ajudar sua empresa a enfrentar o desafiante cenário de EOL, agende uma demonstração gratuita com um dos nossos especialistas em produtos.