5 fatores de risco para interrupção de componentes eletrônicos que você não está considerando

Em 2024, os riscos para componentes eletrônicos vão muito além dos avanços tecnológicos e da onda anual de obsolescência. Conheça cinco fatores discretos que estão tornando sua cadeia de suprimentos vulnerável à interrupção.

5 fatores de risco para interrupção de componentes eletrônicos que você não está considerando

A cadeia de suprimentos eletrônica sempre foi instável e imprevisível, mas a pandemia trouxe um novo nível de caos para esse cenário. Desequilíbrios sem precedentes entre oferta e demanda desencadearam grandes escassezes e deixaram os profissionais de sourcing estratégico e engenheiros de componentes enfrentando dificuldades para lidar com lockdowns governamentais, paralisações de fábricas, falta de componentes e uma sucessão de crises no transporte e envio. 

Como resultado dessa experiência, esses profissionais estão agora mais focados em riscos do que nunca.  O risco relacionado a componentes eletrônicos, no entanto, segue crescendo tanto em complexidade quanto em abrangência. Engenheiros de componentes e especialistas em sourcing estratégico que concentram esforços no gerenciamento do ciclo de vida, sanções governamentais e na crescente lista de restrições de importação podem estar se expondo a uma série de outros fatores de interrupção em seu setor. Pois, além das preocupações mais debatidas e que ganham destaque nos noticiários, existe uma série de fatores mais sutis que podem comprometer componentes eletrônicos e limitar a atuação de profissionais do setor. 

Pois, além das preocupações mais debatidas e que ganham destaque nos noticiários, existe uma série de fatores mais sutis que podem comprometer componentes eletrônicos e limitar a atuação de profissionais do setor. 

1) O Novo Cenário da Compliance Ambiental 

A Diretiva RoHS da União Europeia

Quando a Diretiva de Restrição de Substâncias Perigosas (RoHS) da União Europeia entrou em vigor em 2006, ela provocou uma grande disrupção na indústria eletrônica e na cadeia de suprimentos de componentes eletrônicos. A Diretiva RoHS restringiu o uso de materiais considerados substâncias perigosas—incluindo chumbo, cádmio e mercúrio—em eletrônicos e seus componentes. A regulamentação ocasionou uma onda de obsolescência e forçou engenheiros e profissionais de sourcing a restruturar rapidamente suas cadeias de suprimentos de componentes eletrônicos. Felizmente, esses impactos foram sentidos num período de tempo limitado. 

Fabricantes de componentes eletrônicos se adaptaram, especialistas em sourcing estratégico identificaram novos fornecedores e engenheiros de componentes ajustaram suas listas de materiais (BOM) substituindo itens não conformes. Ao longo dos 15 anos seguintes, a UE ampliou o escopo da RoHS apenas duas vezes, em 2013 e 2019. Ou seja, em quase duas décadas desde sua vigência nos 27 países membros da UE, a RoHS permaneceu relativamente estável e previsível. Para os profissionais que trabalham diariamente com componentes eletrônicos, tornou-se uma regulamentação ambiental sobre a qual raramente precisavam se preocupar. 

RoHS, REACH, PFAS e mais

Hoje, a compliance ambiental está longe de ser estática e previsível. O regulamento Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Produtos Químicos (REACH) da UE, por exemplo, é muito mais dinâmico e sujeito a mudanças. A Lista de Candidatos a Substâncias de Alta Preocupação (SVHC) do REACH é atualizada duas vezes ao ano, exigindo que fabricantes avaliem regularmente seus produtos, materiais e listas de materiais (BOM) para garantir conformidade com o REACH e manter acesso ao enorme mercado comercial europeu. 

Já a regulamentação das substâncias perfluoroalquil e polifluoroalquil (PFAS) apresenta um desafio ainda mais complexo para profissionais de compliance e engenheiros de componentes que avaliam seus itens. A REACH lista vários grupos de PFAS em sua SVHC Candidate List e restringe o uso de vários tipos de PFCA (um tipo de PFAS). Em 2023, vários países da UE e do Espaço Econômico Europeu (EEE) apresentaram uma proposta para expandir drasticamente o número de PFAS restritos pelo REACH, para cerca de 10.000 substâncias químicas. E enquanto o governo federal dos EUA pode estar atrás da UE em termos de regulamentação das PFAS, estados individuais estão avançando de forma agressiva para aprovar legislações que proíbem o uso dessas famílias químicas em várias categorias de produtos. 

O ponto central é que a natureza e a abrangência das regulamentações ambientais mudaram nos últimos cinco anos. Normas como REACH agora são ampliadas regularmente, diretrizes inéditas surgem com maior frequência do que nunca, e o nível de rigor sobre substâncias químicas e outros insumos potencialmente perigosos aumentou consideravelmente. Profissionais de compras e engenheiros de componentes precisam entender e dominar esse novo cenário regulatório com uma fluência muito maior do que em décadas anteriores. 

2) Dependências de Única Planta

Na era pós-pandemia, não faltam discussões sobre multisourcing. Muitos fabricantes de equipamentos originais (OEMs) e outras empresas aprenderam da pior forma que depender de uma única fonte representa grande vulnerabilidade em tempos de crise e disrupção. Como consequência, passaram a estabelecer relações com múltiplos fornecedores, identificar antecipadamente potenciais alternativas e diversificar o fornecimento para não depender excessivamente de gargalos geográficos ou pontos únicos de falha. 

A importância de uma estratégia de multisourcing

Mas, para que os fabricantes tenham um gerenciamento de risco realmente abrangente, é preciso olhar além de suas próprias estratégias de multisourcing. Fornecedores que dependem de uma única fábrica, instalação ou local para a fabricação de determinado componente deixam seus clientes mais expostos ao risco. Fornecedores com dependências de único site são vulneráveis a diversos eventos imprevisíveis, como fenômenos climáticos extremos, incêndios em fábricas, falhas de equipamentos e greves trabalhistas. Empresas que fabricam determinado componente em uma única planta podem ter sua produção comprometida por qualquer um desses eventos, deixando seus clientes lutando para manter a produção e evitar prejuízos com atrasos e paralisações. 

Ao analisar potenciais fornecedores, as empresas devem tratar as dependências de único site como um fator de risco legítimo, equivalente ao risco da prática de fonte única no nível de OEM. Negócios que buscam fornecedores de componentes eletrônicos com estratégia de múltiplos sites estarão mitigando de forma proativa as diversas ameaças que podem acometer uma fábrica individual. 

Negócios que buscam fornecedores de componentes eletrônicos com estratégia de múltiplos sites estarão mitigando de forma proativa as diversas ameaças que podem acometer uma fábrica individual. 

3) Risco dos Fornecedores 

Ao pensar em risco no setor eletrônico, engenheiros de componentes e profissionais de sourcing estratégico geralmente associam ameaças a interrupções que afetam diretamente suas cadeias de suprimentos. 

Esses fatores incluem desde o risco constante de obsolescência, mudanças repentinas nas dinâmicas de oferta e demanda do mercado, até as diversas consequências de eventos climáticos extremos. Mas enxergar as disrupções apenas assim—como uma coleção de eventos imprevisíveis que abalam e desorganizam as cadeias—deixa de lado um dos maiores fatores de risco para qualquer OEM ou fabricante de eletrônicos: os fornecedores. 

Fornecedores: o fator de risco subestimado

Os fornecedores de uma empresa não são apenas os elos construtivos da cadeia de suprimentos; são também entidades grandes e complexas que concentram diferentes tipos de riscos. Embora essas ameaças geralmente não ganhem destaque ou manchetes—normalmente não possuem o apelo de piratas sequestrando contêineres no Mar Vermelho ou de tufões devastando infraestrutura crítica—, são igualmente relevantes para a gestão de riscos dos negócios. 

Leia também: O que deve incluir uma boa análise de riscos de fornecedores de semicondutores? (Parte 1) - Z2Data

Os diferentes riscos ligados aos fornecedores

Cada fornecedor traz consigo uma série de riscos distintos. Entre eles estão: passivos financeiros e risco de falência; riscos cibernéticos; fragilidades em práticas de sustentabilidade e desempenho ESG; além de vulnerabilidade a eventos geopolíticos. Este último, em especial, costuma ter impacto desproporcional. O país, região e até o relacionamento do fornecedor com seu governo nacional podem torná-lo sujeito a tarifas, sanções e controles de importação. Somados, esses fatores formam um conjunto grave de ameaças, capazes de desestabilizar as operações de um fabricante de forma tão ou mais séria do que desastres naturais ou grandes conflitos internacionais. 

Embora a expressão supply chain risk management (SCRM, gestão de riscos da cadeia de suprimentos) tenha se tornado popular para descrever formas de mitigar ameaças aos negócios, a ideia de gestão de riscos de fornecedores deveria ter a mesma relevância. 

4) Disponibilidade e Escassez de Matérias-Primas Estratégicas 

Fabricantes de chips dependem de várias matérias-primas essenciais para a produção de semicondutores, incluindo silício, gálio e germânio. Os EUA e outros países obtêm grande parte dessas matérias-primas da China, que detém a maior fatia do mercado global de produção. O país é responsável por cerca de 98% do gálio global, em torno de dois terços do suprimento mundial de germânio refinado e até 80% de todo o silício bruto. Esse gargalo global de materiais chamou atenção durante a pandemia de COVID-19, quando uma sucessão de surtos e lockdowns na China impactou significativamente a produção desses insumos críticos. 

O que está ameaçando o abastecimento

Embora o fornecimento dessas matérias-primas cruciais para a fabricação de semicondutores tenha se mantido relativamente estável no último ano ou dois, o risco de escassez volta a aparecer no horizonte. No final do ano passado, a Deloitte previu que diversas regiões do mundo podem enfrentar falta de gálio e germânio já no final de 2024, enquanto 2025 pode marcar o início de carências em minerais estratégicos, como o lítio. 

Forças geopolíticas também ameaçam os estoques globais desses materiais. Em uma ação amplamente vista como retaliação nas atuais “guerras dos chips” do último verão, a China impôs restrições à exportação de gálio e germânio, citando motivos de segurança nacional. Embora muitas das maiores fundições de semicondutores do mundo tenham minimizado rapidamente o impacto das medidas, a decisão pode ser um prenúncio de disputas ainda mais severas por recursos no futuro. 

5) Pegada de Carbono dos Componentes

Parece que o conceito de ESG (ambiental, social e governança) está em pauta no mundo dos negócios nos últimos anos. Mas, mais recentemente, esse termo—que define os três “pilares” de sustentabilidade—ultrapassou o campo dos discursos e promessas. Diversos estudos e levantamentos mostram que fatores ESG estão avançando rapidamente na contabilidade e no reporte corporativo. 

O avanço dos relatórios ESG

Segundo uma pesquisa do Wall Street Journal, dois terços das empresas abertas dos EUA divulgaram dados ESG em 2022. Esse número representa um salto em relação ao ano anterior, quando apenas 56% relataram dados ambientais, sociais e de governança. Estudos e relatórios semelhantes indicam que cresce constantemente a proporção de empresas abertas que divulgam informações de sustentabilidade, sem sinais de estabilização. Relatórios relacionados a emissões de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram ainda mais rápido: menos de um quarto das empresas dos EUA relataram emissões do escopo 1 em 2018 e, quatro anos depois, esse índice já era quase a metade. (Os números são semelhantes para emissões do escopo 2.)

ESG se consolida como parte da responsabilidade corporativa

Essas tendências mostram que o reporte ESG não é um fenômeno passageiro ou uma moda temporária de accountability corporativa. Pelo contrário, está se tornando parte permanente do que as empresas devem divulgar para governos e para o público. Essa popularização e institucionalização do reporte ESG significa que OEMs, engenheiros de componentes e profissionais de compras precisam incorporar a contabilidade de carbono ao longo de suas cadeias de suprimentos. Isso inclui a pegada de carbono de cada componente individual. 

Embora o cálculo e reporte das emissões do escopo 3 ainda não seja uma prática generalizada, quase certamente passará a ser nos próximos anos. E, quando esse momento chegar, componentes eletrônicos com pegadas de carbono elevadas e insustentáveis se transformarão em passivos regulatórios. Empresas capazes de antecipar esse novo fator de risco—presente justamente nos semicondutores, transistores e capacitores que compõem seus produtos—estarão em melhor posição para reestruturar o sourcing em torno de componentes mais sustentáveis. 

Identificando e Mitigando Riscos Difíceis de Enxergar 

OEMs e outras empresas que desejam se antecipar aos diversos potenciais riscos de disrupção em componentes eletrônicos precisam de abordagens nuançadas e flexíveis para enxergar o risco. Abaixo dos riscos mais evidentes para componentes e cadeias de suprimentos eletrônicos, existem vulnerabilidades muito mais difíceis de detectar do que uma série de paralisações de fábricas ou um pico de obsolescência em chips legados. 

Abaixo dos riscos mais evidentes para componentes e cadeias de suprimentos eletrônicos, existem vulnerabilidades muito mais difíceis de detectar do que uma série de paralisações de fábricas ou um pico de obsolescência em chips legados. 

Organizações capazes de analisar com profundidade e precisão tanto seus fornecedores quanto os componentes usados em seus produtos—função na qual ferramentas de supply chain risk management (SCRM) podem ter papel fundamental e até transformador—terão dados acionáveis para se adaptar de forma mais rápida e eficaz que a concorrência. Afinal, as disrupções nem sempre são eventos que surgem de forma espontânea em gargalos geográficos ou rotas logísticas delicadas. Elas também vêm de riscos embutidos nos lugares onde você não está acostumado a observar—bem diante dos seus olhos.

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