Compreender a obsolescência no setor eletrónico

A obsolescência afeta centenas de milhares de componentes eletrónicos todos os anos. Mas quais são as principais forças que impulsionam a obsolescência de componentes e como evoluíram na década tempestuosa de 2020?

Compreender a obsolescência no setor eletrónico

Destaques do artigo:

  • A obsolescência de componentes define-se quando um componente deixa de ser fabricado.
  • Os custos com os redesigns de produtos provocados pela obsolescência de componentes variam entre $20.000 e $2 milhões.
  • Em 2023, cerca de 473.000 componentes atingiram o seu fim de vida (EOL), uma diminuição de 37% face a 2022.
  • Cerca de 30% de todos os EOL não são antecedidos pela emissão de um PCN.
  • Os três principais fatores da obsolescência são a baixa procura do mercado, concorrentes de baixo custo e regulamentação governamental.

Os fabricantes de equipamentos originais (OEMs) da indústria eletrónica têm de navegar regularmente numa cadeia de abastecimento instável e em constante transformação, que resiste persistentemente à continuidade e à previsibilidade. Grandes OEMs reconhecidos, como Apple, Samsung, Sony e Dell, são responsáveis pelo sourcing de milhares de componentes eletrónicos junto de uma vasta rede de fornecedores, cujos stocks mudam continuamente em resultado de múltiplos fatores. Um dos mais relevantes e consequentes é a obsolescência de componentes eletrónicos — fenómeno que ocorre quando um fornecedor descontinua a produção de um componente específico.

O que é a obsolescência de componentes?

Em termos fundamentais, a obsolescência de componentes é simples de definir: um componente torna-se obsoleto quando deixa de ser fabricado. Normalmente, isto acontece porque a procura caiu a níveis tão baixos que já não compensa aos fabricantes continuar a produção, ou porque os materiais ou tecnologias necessários para produzí-lo já não estão disponíveis.

A dimensão da obsolescência de componentes permite perceber a influência significativa deste fator no panorama eletrónico. Segundo dados do relatório da Z2Data, Obsolescence Trends in 2024, quase 750.000 componentes ficaram obsoletos em 2022. Embora esse número expressivo tenha diminuído em 2023, no ano passado mais de 470.000 componentes atingiram o fim de vida (EOL). Regra geral, os fabricantes do setor eletrónico podem contar com centenas de milhares de componentes a tornarem-se obsoletos todos os anos — sendo que interrupções graves como a pandemia de COVID-19 podem aumentar expressivamente esses valores. Os dados do nosso relatório mostram que centenas de empresas são afetadas, anualmente, pela obsolescência de componentes.

No geral, os fabricantes do setor eletrónico podem contar com centenas de milhares de componentes a tornarem-se obsoletos todos os anos — sendo que interrupções graves como a pandemia de COVID-19 podem levar a aumentos significativos nesses valores.
Tendências da obsolescência de componentes

Quanto custa a obsolescência de componentes para as empresas?

Os custos associados ao redesign de produtos provocados pela obsolescência de componentes variam entre $20.000 e quase $2 milhões.

Os custos associados ao fim de vida são quase sempre expressivos. Os redesigns de produtos impulsionados pela obsolescência de componentes variam entre $20.000 e quase $2 milhões. Estudos do setor indicam que cerca de 10% do orçamento de componentes dos fabricantes do setor aeroespacial dirige-se à gestão do risco de obsolescência. Importa também destacar que tentar resistir às medidas necessárias para responder ao fim de vida, mantendo componentes obsoletos a qualquer custo, é altamente dispendioso. Os preços de chips após a descontinuação da produção podem atingir 10 a 15 vezes o valor original.

Os preços de chips após a descontinuação da produção podem atingir 10 a 15 vezes o valor original.

Para OEMs e outras organizações que dependem de componentes IP&E (interligação, passivos e eletromecânicos) e dispositivos semicondutores, desenvolver um conhecimento aprofundado e rigoroso sobre o funcionamento da obsolescência de componentes permite estar melhor preparado quando surge um aviso de EOL e esse impacto recai sobre uma das suas listas de materiais (BOMs). O risco de obsolescência é uma força disruptive inevitável na indústria eletrónica — sem sinais de abrandamento. Empresas que compreendem este fenómeno e planeiam adequadamente conseguem mitigar de forma mais eficaz as suas consequências financeiras e operacionais.

O ciclo de vida dos componentes eletrónicos

Para compreender melhor o funcionamento da obsolescência de componentes e os motivos que explicam a sua prevalência no setor eletrónico, importa conhecer o ciclo de vida dos componentes eletrónicos. Mesmo que os fabricantes não projetem e desenvolvam componentes eletrónicos para um período definido de vida útil, quase todos seguem uma trajetória finita: começa com a introdução no mercado, passa por fases de crescimento, maturidade e declínio, e termina com o aviso de fim de vida que antecipa a descontinuação iminente.

O ciclo de vida de um componente eletrónico, etapa a etapa
EtapaResumo
IntroduçãoO componente eletrónico foi projetado, prototipado e fabricado. Entra no mercado.
CrescimentoO componente desenvolve uma base de clientes, incluindo OEMs, fabricantes por contrato e distribuidores. A procura pelo componente aumenta, tal como as vendas.
MaturidadeO componente afirma-se na cadeia de abastecimento, com uma carteira de clientes estável e fiel. Esta fase caracteriza-se, frequentemente, pela produção em série, ampla distribuição e volumes máximos de vendas.
DeclínioApós uma fase de crescimento e de estabilização das vendas, a procura diminui e as vendas começam a decrescer. Isto pode dever-se a vários fatores, como o surgimento de tecnologia mais avançada, preços mais competitivos para componentes equivalentes, ou restrições comerciais e regulamentação governamental que afetam os clientes. Adicionalmente, determinados desenvolvimentos na cadeia de abastecimento — incluindo escassez de matéria-prima — podem facilitar o declínio de um componente. Nesta fase, o risco de obsolescência começa a aumentar.
DescontinuaçãoO fabricante decide oficialmente terminar a produção do componente. Durante este período, o fabricante emite geralmente um aviso de descontinuação, ou aviso de fim de vida (EOL), aos seus clientes. Muitos fornecedores dão aos clientes um prazo de seis meses ou mais entre a emissão do aviso e a última data de venda (EOS). (Apesar desta prática ser comum, não existe garantia. Segundo o relatório Obsolescence Report 2024, cerca de 30% dos componentes eletrónicos que ficaram obsoletos em 2023 não foram acompanhados por um PCN do fabricante.)
Descontinuação e obsolescênciaApós o período de aviso por PCN, o fabricante deixa de fabricar o componente. Após a obsolescência, o componente pode ainda estar disponível numa escala muito reduzida junto de distribuidores no mercado secundário. No entanto, a oferta limitada e a escassez fazem com que os componentes obsoletos custem muitas vezes várias vezes mais do que custavam durante a produção regular.

Fatores determinantes da obsolescência de componentes

A realidade estatística da obsolescência de componentes é inegável. Todos os anos, centenas de milhares de componentes eletrónicos atingem o fim de vida, e OEMs e engenheiros de componentes navegam regularmente um percurso repleto de PCNs que obrigam a ajustar listas de materiais (BOMs), identificar equivalências (cross-references) e redesenhar produtos. Contudo, as forças que impulsionam a obsolescência de componentes nem sempre são tão concretas como um aviso oficial de fim de vida de um fornecedor. Empresas que conhecem as diferentes tipologias de risco de obsolescência e as razões que levam os fabricantes a descontinuar componentes estão mais bem preparadas para ciclos de vida imprevisíveis — e, frequentemente, mais curtos do que o esperado. Com o tempo, este conhecimento e experiência contribuem para estratégias de gestão da obsolescência mais eficazes.

Empresas que conhecem as diferentes tipologias de risco de obsolescência e as razões que levam os fabricantes a descontinuar componentes estão mais bem preparadas para ciclos de vida imprevisíveis — e, frequentemente, mais curtos do que o esperado.

Fator #1: Baixa procura do mercado

Segundo o relatório da Z2Data, Obsolescence Trends in 2024, mais de três quartos das ocorrências de obsolescência de componentes têm origem numa baixa procura do mercado. Trata-se de uma percentagem significativa, que evidencia que são sobretudo os OEMs e outros clientes — e não os fabricantes de componentes eletrónicos — que acabam por impulsionar a obsolescência.

Mas porque é que a procura de mercado diminui, e porque tem desencadeado as crescentes taxas de obsolescência de componentes no setor ao longo da última década? Uma variável determinante são os avanços tecnológicos realizados pelos OEMs. Empresas que fabricam desde smartphones, computadores e consolas de videojogos até automóveis e eletrodomésticos lançam continuamente novas gerações dos seus produtos de referência. Com a entrada destes produtos, muitos dos componentes anteriores tornam-se obsoletos. O ritmo destas transições é cada vez mais acelerado: a Apple lança uma nova geração do iPhone todos os anos, e os fabricantes automóveis renovam profundamente os seus modelos a cada cinco anos, aproximadamente.

Mas porque é que a procura de mercado diminui, e porque tem desencadeado as crescentes taxas de obsolescência de componentes no setor ao longo da última década? Uma variável determinante são os avanços tecnológicos realizados pelos OEMs.

O encurtar destes ciclos significa que a procura de determinados componentes pode descer rapidamente, levando os fabricantes a iniciar processos de descontinuação e a definir prazos para terminar a produção. Em resumo, os componentes só subsistem no mercado enquanto os produtos em que são incorporados continuarem a ser comercializados. À medida que o período de produção em série e de vendas em volume desses produtos diminui, o risco de obsolescência cresce inevitavelmente.

Fator #2: Concorrentes de baixo custo

Quando um componente de sucesso se consolida e é amplamente utilizado, surgem com frequência concorrentes que oferecem equivalências no mercado a preços mais baixos. Esta dinâmica recorrente pode também reduzir a procura, acabando por alimentar a obsolescência de componentes.

Os fabricantes rivais podem ainda tentar conquistar quota de mercado de um componente com grandes volumes de vendas. Concorrentes com custos de produção mais baixos podem entrar no mercado ou fabricantes nacionais podem transferir unidades fabris para localizações com custos inferiores, permitindo baixar os preços.

Fator #3: Regulamentação governamental

Ainda que, normalmente, não tenham uma influência tão consistente ou forte como as oscilações na procura, as regulamentações governamentais representam um risco de obsolescência relevante. Restrições ao comércio podem afetar relações na cadeia de abastecimento e afastar fabricantes de componentes dos seus clientes. Diretivas ambientais podem introduzir novas restrições ao uso de materiais, tornando centenas ou milhares de componentes obsoletos.

Como descrito pela Electronics Sourcing, quando a Diretiva de Restrição de Substâncias Perigosas (RoHS — Restriction of Hazardous Substances Directive) da União Europeia entrou em vigor em 2006, proibindo materiais como chumbo, mercúrio e cádmio em componentes eletrónicos, originou um aumento exponencial na obsolescência de componentes. A extensão do Regulamento REACH (Registration, Evaluation, Authorisation, and Restriction of Chemicals) ao longo da década seguinte levou a novas vagas de EOL. Com o foco crescente dos governos em ESG e sustentabilidade, espera-se que surjam novos regulamentos ambientais mais restritivos, o que poderá tornar esta causa de obsolescência ainda mais prevalente.

Escassez de matérias-primas e outros problemas na cadeia de abastecimento

Ao contrário dos ciclos cada vez mais rápidos entre gerações de produtos ou do aumento das políticas ambientais, os problemas decorrentes da cadeia de abastecimento têm complicado a indústria eletrónica há décadas. As escassezes prolongadas de matérias-primas essenciais, em particular, podem obrigar os fabricantes a abandonar determinados componentes. Se uma empresa não conseguir garantir o aprovisionamento de um material crítico para um componente, poderá reduzir ou suspender a sua produção, perdendo clientes e quota de mercado. Sempre que a escassez, e os seus efeitos em cascata, não puderem ser rapidamente ultrapassados ou compensados, a obsolescência poderá ser a solução operacional mais eficiente e direta.

O risco de obsolescência em 2024 e no futuro

A crise de obsolescência observada durante o período pandémico causou fortes perturbações nas cadeias de abastecimento eletrónicas, forçando tanto os fabricantes de componentes como os seus clientes OEM a adaptarem repetidamente os seus métodos de sourcing e fabrico. Felizmente, os picos históricos registados durante a pandemia têm vindo a suavizar-se. No entanto, apesar de o número de avisos de fim de vida estar a regressar a níveis pré-COVID, isto não significa que as dinâmicas subjacentes à vaga histórica de obsolescência tenham ficado para trás.

Relatório de tendências em eletrónica

Durante os confinamentos e generalização do trabalho e ensino à distância que marcaram os anos da COVID-19, fabricantes de semicondutores e componentes eletrónicos enfrentaram um aumento repentino na procura. A indústria não tinha capacidade para responder ao volume crescente de encomendas dos OEMs e restantes clientes. A escassez mundial de chips que daí resultou foi um catalisador para mudanças profundas, levando as empresas a ampliar capacidades fabris, construir novas instalações e aumentar a produção dos componentes mais procurados. Contudo, este crescimento operacional acarreta custos significativos. Para reduzir custos indiretos e preparar novos modelos de produção, muitas organizações descontinuam componentes mais antigos e menos rentáveis. Ou seja, grandes reajustes produtivos nos maiores setores tecnológicos não só aumentam a pressão sobre a produção de semicondutores — como frequentemente provocam subidas acentuadas das taxas de obsolescência de componentes.

Ao longo do que resta desta década, setores como a aeroespacial e defesa, tecnologia médica, e sobretudo automóvel e o seu crescente segmento elétrico, vão impulsionar uma procura enorme de semicondutores e outros componentes eletrónicos. E à medida que o setor avança para novas fases de crescimento acelerado, existe uma forte probabilidade de o risco de obsolescência de componentes voltar a aumentar. Por isso, apesar da bem-vinda estabilidade dos últimos tempos, após a correria dos fabricantes no início desta década para expandir capacidade, as perspetivas de desenvolvimento acelerado em setores-chave indicam que um novo período de risco elevado de obsolescência pode estar iminente.

Por isso, apesar da bem-vinda estabilidade dos últimos tempos, após a correria dos fabricantes no início desta década para expandir capacidade, as perspetivas de desenvolvimento acelerado em setores-chave indicam que um novo período de risco elevado de obsolescência pode estar iminente.