A guerra tecnológica entre os EUA e a China alarga-se a Taiwan

Na semana passada, o governo dos EUA ordenou à Nvidia e à AMD que suspendessem a venda de chips de IA de alto desempenho à China devido aos potenciais riscos de estes produtos poderem ser utilizados pelas forças armadas chinesas.

A guerra tecnológica entre os EUA e a China alarga-se a Taiwan

Na semana passada, o governo dos EUA ordenou à Nvidia e à AMD que suspendessem a venda de chips de IA de alto desempenho à China, devido ao risco potencial de estes produtos serem utilizados pelo exército chinês. O âmbito da ordem parece ir para além da Nvidia e da AMD, já que outras empresas tecnológicas terão recebido cartas semelhantes nas últimas semanas, informando-as de que as tecnologias de topo que exportam para a China passaram a estar sujeitas a restrições.  

Esta é mais uma jogada no xadrez entre os dois países e no confronto pelo domínio do poder económico e das tecnologias avançadas. Taiwan tem desempenhado um papel fundamental devido à sua importância estratégica para a indústria de tecnologia de semicondutores. 

Taiwan produz 65% dos semicondutores mundiais e a TSMC de Taiwan é responsável por quase 90% dos chips avançados, o que significa que a China e o mundo dependem fortemente do fornecimento de semicondutores provenientes de Taiwan. 

Taiwan tem sido governada de forma independente da China desde 1949, mas a China considera a ilha como parte do seu território e prometeu «unificar» Taiwan com o continente, recorrendo à força se necessário.

A China tem vindo a reforçar a sua posição militar em torno de Taiwan, construindo pelo menos três ilhas no disputado Mar do Sul da China (SCS) e militarizando-as totalmente, equipando-as com sistemas de mísseis antinavio e antiaéreos, dispositivos de laser e de interferência, e aviões de combate, numa ação cada vez mais agressiva que ameaça todas as nações que operam na proximidade.  

No ano passado, o Departamento de Defesa dos EUA divulgou um relatório sobre a estratégia e resposta dos EUA à agressão chinesa no SCS, afirmando que a expansão chinesa nesta zona é prejudicial para a estabilidade e segurança da região Indo-Pacífico (IPR). O relatório sublinha ainda que os EUA vão obstruir a supremacia informacional da China na região, com ciberataques e ataques de precisão às principais capacidades económicas e informacionais chinesas. O Secretário da Defesa dos EUA, Lloyd J. Austin, afirmou: «O Departamento dará prioridade à China como o principal desafio estratégico, desenvolvendo os conceitos operacionais, capacidades e planos necessários para reforçar a dissuasão e manter a nossa vantagem competitiva. Garantiremos que a nossa abordagem à China seja coordenada e sincronizada em toda a organização, integrando as nossas prioridades nas políticas internas e externas, numa estratégia de governo alargada, reforçada pelas nossas alianças e parcerias, e apoiada por consenso bipartidário no Congresso.»  

A visita de Nancy Pelosi a Taiwan no mês passado intensificou as manobras militares de ambas as partes na região, sinalizando a escalada das tensões e o aumento do risco de conflito armado.  

Como chegámos aqui

O Asia Times noticiou que as relações EUA-China passaram de construir pontes em 1972 para erguer muros em 2022, sendo que o comércio global nunca mais será o mesmo.  

Desde que o Presidente Nixon reconheceu a República Popular da China (RPC) como único governo chinês e aceitou a política de «Uma Só China» em 1972, o comércio entre os dois países abriu caminho e as empresas de fabrico ocidentais começaram a subcontratar a produção para empresas chinesas devido aos preços de produção mais baixos.  A economia chinesa registou um crescimento exponencial desde então e a classe média chinesa tornou-se mais abastada. Os fabricantes e empresas ocidentais também beneficiaram, graças aos custos de produção mais baixos, maiores margens de lucro e acesso ao mercado de consumidores chinês.  

Segundo o Banco Mundial, a China e os EUA são as duas maiores economias do mundo. O PIB dos EUA cresceu de 4,4 biliões de dólares para 20,9 biliões entre 1980 e 2020, enquanto o da China passou de 310 mil milhões para 14,7 biliões de dólares. 

O rápido crescimento económico e militar da China, juntamente com a sua ambição tecnológica e geopolítica relativamente a Taiwan e os avanços no Mar do Sul da China, passaram a preocupar cada vez mais os EUA, levando a uma mudança nas políticas comerciais, de defesa e políticas externas para com a China.  

Em 2018, os EUA começaram a impor tarifas sobre importações chinesas, dando início a uma guerra comercial, a que a China respondeu com tarifas sobre importações provenientes dos EUA.  

A tensão entre os dois países aumentou de forma contínua desde então, com os EUA a impor sanções crescentes à China, restringindo a tecnologia e o investimento estrangeiro no país, como parte da sua estratégia para limitar o desenvolvimento tecnológico e militar chinês.  

Em resposta a estas pressões, a China anunciou um investimento de 1,4 biliões de dólares em tecnologia para conquistar a liderança tecnológica mundial aos EUA entre 2020 e 2025.  

Onde estamos agora

Os EUA têm vindo a aumentar progressivamente a pressão sobre a China, intensificando as sanções e restringindo as importações da região Uigur e limitando a venda de equipamentos de fabrico de semicondutores e chips à China.  

A administração Biden aprovou também recentemente a Science and Chip Act, planeando investir 52 mil milhões de dólares para garantir a liderança dos EUA na inovação e tecnologia a nível mundial.  

Mais recentemente, o governo dos EUA solicitou à Nvidia e AMD que suspendessem a venda de chips de IA à China, para travar o avanço tecnológico e militar deste país.  

Como resposta, o Presidente Xi Jinping afirmou esta terça-feira que a China irá continuar a reforçar o seu sistema estatal para alcançar avanços em tecnologias nucleares, e reforçar a liderança do Partido Comunista nas inovações tecnológicas. 

As tensões entre os dois países intensificaram-se recentemente com manobras militares em torno de Taiwan. A U.S. Defense Security Cooperation Agency (DSCA) informou formalmente o Congresso, no sábado, sobre uma possível venda de armamento a Taiwan no valor de 1,1 mil milhões de dólares. A China advertiu os Estados Unidos para cessarem as vendas de armas e os contactos militares com Taiwan, após Washington ter concordado em vender mísseis antinavio e ar-ar a Taiwan. Liu Pengyu, porta-voz da Embaixada da China em Washington, alertou que a China «tomará, de forma resoluta, as contramedidas legítimas e necessárias» perante as recentes vendas de armas dos EUA a Taiwan. 

Acrescentou ainda que esta medida «coloca seriamente em risco as relações China-EUA e a paz e estabilidade no Estreito de Taiwan», instando Washington a revogar imediatamente o plano.

Resposta da indústria tecnológica às tensões …  

À medida que ambas as partes aumentam a retórica e o posicionamento militar, o setor tem estado atento e a desviar lentamente a produção da China, procurando transferir a produção para outros países como o Vietname, Coreia, México, Índia e os EUA. 

A guerra tecnológica e comercial EUA-China, a disputa por Taiwan e as medidas em vigor devido à COVID levaram muitas empresas tecnológicas a transferir de forma gradual a sua produção para fora da China e a reestruturar as suas cadeias de abastecimento. 

Por exemplo, em junho, a Apple transferiu parte da produção do iPad da China para o Vietname. A Foxconn assinou recentemente um contrato de 300 milhões de dólares para expandir a sua presença no norte do Vietname com uma nova fábrica que irá gerar 30 000 empregos, segundo informação das autoridades locais. Este valor soma-se aos 1,5 mil milhões que, de acordo com o governo vietnamita, a Foxconn já terá investido no país.

A Foxconn e a Pegatron estão a ponderar produzir iPhones para a América do Norte no México, e não na China, para beneficiar de custos laborais mais baixos e do acordo de livre comércio entre os EUA e o México.

A construção de novas unidades fabris nos EUA aumentou 116% no último ano, com muitas empresas a utilizarem os termos onshoring, reshoring ou nearshoring. Empresas europeias e coreanas anunciaram igualmente planos para saírem da China.  

Em suma, os países estão cada vez mais a ser obrigados a tomar partido à medida que as tensões entre os EUA e a China aumentam, e as empresas terão de planear as suas cadeias de abastecimento em conformidade.