Novas restrições às exportações de gálio e germânio da China afetam a indústria dos semicondutores

A 3 de julho, o Ministério do Comércio da China anunciou um novo conjunto de restrições às exportações de gálio e germânio, dois elementos essenciais utilizados na produção de semicondutores e eletrónica de consumo.

Novas restrições às exportações de gálio e germânio da China afetam a indústria dos semicondutores

Atualizações (19/07/23)

Que produtos são abrangidos pelas novas restrições à exportação da China?

As novas restrições impostas pela China deixaram muitos exportadores a questionar até onde vão as novas regras. Segundo a Covington, uma sociedade de advogados multinacional norte-americana, «o anúncio das restrições detalha os códigos de classificação pautal concretos» das mercadorias afetadas pelas novas regras. «Importa salientar que as novas regras aplicam-se apenas a estas mercadorias específicas, e não a produtos acabados que as incorporem.»  

Mais um passo no longo impasse pela defesa de interesses de segurança nacional

Apesar de as restrições chinesas ao gálio e germânio poderem surpreender alguns, representam a continuação das tensões em matéria de segurança nacional entre a China e os Estados Unidos.  

No artigo para a Foreign Investment Watch, o advogado e analista da China Nathanial Reid indicou que «provas dos casos CFIUS…apoiam a ideia de que os semicondutores de larga banda proibida são um ponto central» para o governo dos EUA em matéria de segurança nacional.

Os semicondutores de «larga banda proibida» são aqueles que permitem «tornar os componentes eletrónicos de potência ‘mais pequenos, mais rápidos, mais fiáveis e mais eficientes do que os seus equivalentes à base de silício (Si)’.»

O CFIUS, ou Committee on Foreign Investment in the United States, é uma comissão interministerial «competente para rever determinadas transações que envolvem investimento estrangeiro nos Estados Unidos… para determinar o seu impacto na segurança nacional dos Estados Unidos.»  

Embora sejam poucos os processos do CFIUS relacionados com o gálio, os que chegam a ser avaliados dificilmente obtêm aprovação. Eis um breve resumo dos casos conhecidos relacionados com o gálio:

  • 2015: O CFIUS destacou preocupações relativamente à venda da participação da Philips na «sua subsidiária de componentes para automóveis e LED» a investidores chineses. O negócio acabou por ser retirado.
  • 2016: A San’an Optoelectronics, com sede na China, propôs adquirir a GCS Holdings, fabricante de semicondutores de Taiwan. O CFIUS informou que não iria aprovar o negócio, que acabou por não se concretizar.  
  • 2016: O fundo de investimento Fujian Grand Chip Investment Fund LP fez uma oferta para adquirir a fabricante alemã de semicondutores Aixtron SE. O negócio foi travado pelo Presidente Obama sob recomendação do CFIUS.
  • 2016: A empresa alemã de semicondutores Infineon acordou comprar uma divisão da Cree, fabricante de semicondutores da Carolina do Norte.» O negócio foi bloqueado pelo CFIUS devido a preocupações de segurança nacional.  

Atualizações (11/07/23)

Na semana após o anúncio das novas restrições pela China, o mercado de gálio e germânio registou uma alteração nos preços: o gálio aumentou $43 para $326 por quilograma. O preço do germânio registou uma variação inferior a 2%.  

Enquanto fontes políticas e mediáticas especulam sobre o impacto desta medida no agravamento das tensões comerciais entre a China e o Ocidente, as empresas do setor industrial analisam o efeito prático junto dos principais líderes de mercado.  

Durante a última semana, mais empresas anunciaram revisões internas para avaliar o impacto das restrições comerciais da China, incluindo a Intel, a Microchip e a Infineon.  

A Microchip referiu que a sua avaliação inicial não identificou impacto material, enquanto a Intel indicou ainda estar a avaliar consequências. Um porta-voz afirmou que «a nossa estratégia de manter uma cadeia de abastecimento global e diversificada minimiza o risco para alterações e interrupções locais.»

A Infineon afirmou depender sobretudo de fontes exteriores à China para a sua cadeia de abastecimento e não antecipa nenhum impacto relevante.  

Além disso, empresas mineiras na República do Congo e na Rússia estão a procurar aumentar a produção de gálio e germânio numa tentativa de captar novos compradores e afastá-los da China.  

Pontos de resumo:

  • A 3 de julho, a China anunciou novas restrições à exportação de gálio e germânio
  • Os exportadores necessitarão de licença para exportar estes elementos a partir de 1 de agosto de 2023
  • 95% das importações de gálio dos Estados Unidos têm origem na China
  • O gálio e o germânio são essenciais para a produção de semicondutores e equipamentos eletrónicos
  • As empresas do setor dos semicondutores apresentam reações mistas sobre o potencial impacto

Visão geral:

No dia 3 de julho, o Ministério do Comércio da China anunciou um novo conjunto de restrições à exportação de gálio e germânio, dois elementos essenciais usados na produção de semicondutores e equipamentos eletrónicos de consumo.

As autoridades de Pequim anunciaram que, a partir de 1 de agosto de 2023, os exportadores necessitarão de licença para expedir gálio e germânio para fora do país. O processo de candidatura implica a identificação dos importadores, utilizadores finais, bem como da aplicação final dos metais exportados.

Apesar de o anúncio oficial chinês invocar a segurança nacional e interesses do Estado como principal justificação, a decisão surge num contexto de intensificação da guerra tecnológica e comercial com os Estados Unidos e a Europa.

O que são o gálio e o germânio? 

  • O gálio (Ga) e o germânio (Ge) são dois elementos químicos com papel essencial na indústria de produção de semicondutores e equipamentos eletrónicos de consumo. O gálio é utilizado na produção de bolachas semicondutoras compostas, presentes numa variedade de produtos como células solares, LEDs, comunicações por fibra ótica e até odontologia. 
  • O germânio é utilizado tanto na produção de semicondutores como em sistemas de fibra ótica, aplicações para células solares e LEDs. É, ainda, regularmente utilizado em equipamentos de segurança de aeroportos. 

Nenhum destes elementos ocorre naturalmente; ambos são subprodutos da extração de outros metais, como zinco e bauxite. 

Ambos os metais estão classificados como elementos tecnológicos críticos (TCE), fundamentais para o desenvolvimento e fabrico de tecnologias emergentes. A Comissão Europeia inclui ambos os elementos na sua lista de Matérias-Primas Críticas (CRM) e o Departamento de Energia dos EUA refere-os num relatório de 2021 como «essenciais para a prosperidade económica e defesa nacional dos Estados Unidos». 

Qual a dimensão do papel da China na sua produção?

Segundo o Departamento de Energia dos EUA, os Estados Unidos dependem da China para 95% do seu aprovisionamento de gálio. O relatório refere que os EUA «não dispõem de recursos domésticos suficientes para colmatar a procura prevista de determinados materiais críticos, como o cobalto e o gálio». 

A China é também o principal produtor de germânio, «representando 80% da produção mundial total do elemento entre 2012-2016».

A procura de ambos está apenas a aumentar. 

Estudos demonstram que a produção de gálio cresceu «a um ritmo médio de 7% ao ano nas últimas décadas, muito acima da maioria dos metais industriais». Esta evolução é potenciada pela crescente procura de soluções de energia limpa por parte de consumidores e países que procuram atingir os seus compromissos estabelecidos no Acordo de Paris.

O germânio também regista uma procura crescente face ao seu crescimento historicamente sustentado e devido à necessidade de células solares e redes 5G. 

A procura, aliada ao acesso cada vez mais condicionado por estas novas restrições, pode constituir um novo desafio para as equipas de gestão da cadeia de abastecimento no setor eletrónico. 

Como estão a reagir os países afetados

O Japão e a Coreia do Sul são os maiores importadores de gálio e germânio provenientes da China. 

Em resposta ao anúncio, o ministério sul-coreano realizou uma reunião para avaliar a situação, segundo a Financial Times. «Prevê-se que as novas sanções tenham um impacto limitado no sourcing a curto prazo», referiu o vice-ministro para a Política Industrial da Coreia do Sul. «Mas não podemos excluir a possibilidade de as sanções se prolongarem e abrangerem outros produtos.» O responsável afirmou que a situação seria acompanhada atentamente para detetar quaisquer novas alterações. 

O ministro do Comércio japonês, Yasutoshi Nishimura, disse que o governo do Japão está a analisar o impacto que as novas regulamentações poderão ter. 

Segundo a Reuters, um porta-voz do Departamento do Comércio dos EUA afirmou que os Estados Unidos «opõem-se firmemente» à medida e irão trabalhar com os seus aliados para fazer face à situação. Não foram tomadas medidas oficiais para contestar ou abordar diretamente as novas restrições. 

O verdadeiro impacto pode recair sobre as empresas chinesas

De acordo com o South China Morning Post, jornal com sede em Hong Kong e propriedade da Alibaba, as empresas chinesas poderão ser as mais fortemente afetadas pelo novo sistema de licenciamento. A China pode ser o maior produtor mundial de gálio e germânio, mas não é a única fonte de produção de gálio de baixa pureza. Outros produtores incluem o Japão, a República da Coreia e a Rússia.  

Empresas que procurem contornar as novas restrições chinesas poderão conseguir negociar noutros mercados, se necessário, deixando as empresas chinesas em posição desfavorável.

Razões para não se esperar impacto imediato

Enquanto governos e empresas procuram avaliar o impacto, alguns especialistas do setor consideram que as novas restrições correspondem, para já, a pouco mais do que barulho mediático. Um artigo divulgado pelo DigiTimes, jornal do setor de semicondutores, eletrónica e comunicações de Taiwan, destaca três razões principais para que os fabricantes possam não registar efeitos imediatos destas novas restrições:

  1. A produção de gálio está diversificada entre vários países. Desde 2020, pelo menos mais quatro países produzem gálio.
  2. Segundo operadores do setor, a maioria dos principais produtores de substratos de arsenieto de gálio (GaA) não está localizada na China. Além disso, os contratos no setor costumam ter duração de 1-2 anos, o que significa que o gálio permanece acessível ao preço contratual por um período prolongado. Apesar de o licenciamento poder promover algumas alterações nos preços ao longo do tempo, o baixo custo de produção e a não exclusividade deste elemento não conferem à China a vantagem suficiente para aumentar os preços de forma determinante.
  3. Restringir os exportadores de gálio afeta também os fabricantes de substratos chineses. Visto que grande parte do gálio produzido na China se destina à exportação, a produção interna depende significativamente dos exportadores. Restrições excessivas poderão motivar empresas estrangeiras a procurar fontes alternativas mais fiáveis, deixando as empresas chinesas com menos negócios. 

Quem mais produz gálio e germânio?

Os maiores produtores mundiais de gálio incluem o Japão, a República da Coreia, a Rússia e a Ucrânia. A Alemanha e o Cazaquistão produziram em tempos, mas cessaram a produção primária durante a década de 2010. O encerramento das operações alemãs foi justificado pelos custos operacionais elevados e pelos baixos preços praticados pelo gálio chinês. 

Após a China, o Reino Unido, a Rússia e os Estados Unidos são os principais fornecedores de germânio, havendo ainda alguma produção na Finlândia. 

Reação das empresas de semicondutores & outros agentes às restrições

Principais fabricantes e projetistas de semicondutores reagiram também à notícia, incluindo líderes de mercado como a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company Ltd. (TSMC) e a NXP Semiconductors N.V.

Impacto esperado das restrições chinesas ao gálio e germânio nas empresas de semicondutores
EmpresaPaísImpacto esperado
TSMCTaiwanNão prevê impacto
NXPPaíses BaixosImpacto incerto
Volkswagen AGAlemanhaImpacto incerto
Navitas SemiconductorTaiwanNão prevê impacto
AXT, Inc.Estados UnidosA tentar obter licenças para limitar perturbações
GaN Systems, Inc.CanadáNão prevê impacto
IQETaiwanNão prevê impacto

Wolfgang Niedermark, membro do Conselho Executivo da BDI, uma das principais entidades representativas da indústria alemã, talhou que a notícia reforça o argumento para a redução da dependência de matérias-primas no estrangeiro. Considerou as restrições um exemplo «da urgência de a Europa e a Alemanha reduzirem rapidamente a dependência de matérias-primas», em linha com a política que defende para diminuir a dependência económica face à China. 

Potencial impacto sobre intervenientes do setor – Análise da Z2Data

Uma análise adicional com base na plataforma de inteligência de dados da Z2Data identificou mais tipos de componentes e fornecedores potencialmente afetados por estas novas restrições:

Fornecedores de LEDs: 

  • Broadcom Inc.
  • OSRAM Opto Semiconductors GmbH
  • ROHM Co., Ltd
  • LED Indication
  • Colored LED Lighting.
  • Wolfspeed, Inc.

Osciladores (nomeadamente osciladores de cristal):

  • Ecliptek Corp.
  • Transko Electronics, Inc.

Optoacopladores:

  • Broadcom Inc.
  • On Semiconductor
  • Lite-On

Amplificadores RF, comutadores, misturadores:

  • Hittite Microwave
  • NXP
  • Analog Devices

Sensores/Encoders:

  • Bourns, Inc.
  • Broadcom, Inc.
  • Analog Devices

Microcontroladores (MCUs)/Microprocessadores (MPUs):

  • Não muito frequente, mas determinados MCUs/MPUs da NXP utilizam germânio nas soldaduras de esferas nos MCUs e MPUs da NXP

Resistências de chip: 

  • A análise de dados revelou ainda o uso de germânio em determinadas resistências de chip da KOA Speer

Para saber mais sobre como a Z2Data realiza análises aprofundadas do impacto de novos requisitos de conformidade comercial, solicite uma demonstração do produto. 

Qual o impacto previsível a curto prazo para a indústria dos semicondutores?

Apesar das novas restrições acrescentarem complexidade ao processo da cadeia de abastecimento, o seu efeito real permanece por avaliar. As novas regras chinesas não impedem que os exportadores obtenham nenhum destes elementos—apenas obrigam à obtenção de licença para o efeito. E, até serem apresentados os pedidos de licença, é prematuro antecipar restrições ou rejeições neste processo.