Por que as empresas de semicondutores estão migrando para os Estados Unidos?

Há um grande movimento para construir novas fábricas de semicondutores nos Estados Unidos. Por que isso está acontecendo?

Por que as empresas de semicondutores estão migrando para os Estados Unidos?

Visão geral

A tecnologia de semicondutores sempre esteve fortemente associada à Ásia, especialmente Taiwan. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que impressionantes 68% dos semicondutores são produzidos em Taiwan, com a gigante Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) respondendo por mais de 50% do mercado global.

Mas essa percepção está mudando.

Embora não haja expectativa de desaceleração da produção na região APAC (na verdade, existem 20 novas fábricas planejadas para a área e 12 expansões atualmente em andamento em sites já existentes de fabricação de semicondutores), há um movimento global para minimizar a dependência da indústria de semicondutores da região. 

Nos últimos anos, empresas como TSMC, Intel, Micron Technology e Samsung Electronics começaram a investir em novos sites de fabricação de semicondutores nos Estados Unidos. Como resultado desse avanço recente, cerca de 40% das novas fábricas planejadas para os próximos quatro anos serão construídas nos EUA, e muitas delas vão buscar tecnologia de 28 nm ou nós ainda mais avançados. 

Por que as empresas estão construindo fábricas de semicondutores nos EUA?

Analisando essa tendência em alto nível, as empresas buscam mitigar seus riscos. Concentrações geográficas em qualquer setor — seja de minerais críticos, semicondutores ou contêineres de transporte — criam oportunidades de gargalos na cadeia de suprimentos. Basta um ou dois grandes eventos, como um tufão intenso, uma greve sindical ou uma nova sanção, para surgir uma escassez ou disparada de preços que os fabricantes precisam enfrentar. 

Ao diversificar onde os chips são produzidos (especialmente os de design avançado), as empresas podem diluir seus riscos e garantir um fluxo constante do fornecimento com interrupções mínimas, mesmo diante de eventuais perturbações.

Mas por que escolher especificamente os EUA?

Existem três motivos principais para as empresas investirem no desenvolvimento de fábricas de semicondutores nos Estados Unidos:

A crescente influência do CHIPS and Science Act

Sancionada em 2022 pelo governo Biden, a CHIPS and Science Act (CHIPS significa “Creating Helpful Incentives to Produce Semiconductors”) é uma legislação criada para impulsionar a indústria doméstica de semicondutores. 

No momento da assinatura, a lei destinou quase US$ 53 bilhões para projetos de construção de fabricantes de semicondutores nos Estados Unidos. Nos dois anos desde sua implementação, diversos financiamentos foram anunciados, totalizando US$ 30,4 bilhões em subvenções e US$ 25,3 bilhões em empréstimos. Os recursos foram destinados a fabricantes de 14 países diferentes e prometem incentivar a inovação em 14 estados americanos.

Veja os principais beneficiários:

  • BAE Systems: US$ 35 milhões
  • Microchip Technology: US$ 162 milhões
  • GlobalFoundries: US$ 1,5 bilhão em subvenções, US$ 1,6 bilhão em empréstimos
  • Intel: US$ 8,5 bilhões em subvenções, US$ 11 bilhões em empréstimos
  • TSMC: US$ 6,6 bilhões em subvenções, US$ 5 bilhões em empréstimos
  • Samsung: US$ 6,4 bilhões em subvenções
  • Micron: US$ 6,14 bilhões em subvenções, US$ 7,5 bilhões em empréstimos

Esses recursos impulsionaram diversos projetos em semicondutores, pesquisa e desenvolvimento, packaging e mais.

Importante destacar que os fundos do CHIPS and Science Act não se limitam a empresas sediadas nos Estados Unidos. Assim, as subvenções podem atrair investimentos de empresas como TSMC, que possuem tecnologia avançada e mão de obra qualificada para colocar a indústria nacional americana de semicondutores em funcionamento. 

Sanções geopolíticas no horizonte

Dizer que Estados Unidos e China não estão vivendo o melhor momento em termos de compartilhamento de tecnologia de chips seria um eufemismo. Desde o anúncio do Departamento de Comércio dos EUA, em 2020, de que “baniria empresas do mundo todo que usassem tecnologia americana no design ou produção de semicondutores para a Huawei, gigante chinesa de telecomunicações”, as relações entre os dois países nesse tema só se deterioraram. 

Esse movimento é parcialmente motivado por preocupações de segurança nacional, com o governo Biden buscando manter uma vantagem estratégica no desenvolvimento tecnológico. Mas por que adotar uma postura tão agressiva — e, talvez, hostil — em relação ao avanço chinês na fabricação de semicondutores?

O principal motivo é a rápida integração, por parte da China, de avanços tecnológicos comerciais em aplicações militares, tudo com o objetivo de transformar o Exército de Libertação Popular (PLA) — que conta com cerca de 4 milhões de integrantes — em uma “força militar de classe mundial” até 2049. Essa ambição, somada à contínua militarização do Mar do Sul da China, sinaliza a ascensão de uma possível superpotência — e rival dos EUA — contra a qual o governo Biden se vê compelido a agir. 

Desde 2020, ambos os países vêm impondo uma série crescente de sanções para limitar o acesso e o comércio de tecnologia de semicondutores. Para conferir uma linha do tempo completa, incluindo todas as restrições e regulações impostas por ambos, acesse Um Breve Histórico da Disputa Bilionária dos Chips Entre EUA e China.

Além da escalada dessa guerra tecnológica entre os países, há outro tipo de sanção a ser considerado: as regulações de comércio.

Com o objetivo de combater violações de direitos humanos na cadeia de suprimentos, os Estados Unidos implementaram regulações como o Uyghur Forced Labor Prevention Act (Lei de Prevenção ao Trabalho Forçado Uigur), legislação que visa impedir a importação de produtos feitos com mão de obra forçada oriunda de minorias étnicas na China. 

Desde sua promulgação em dezembro de 2021, mais de 60 entidades entraram para a lista por suspeita de ligação com trabalho forçado. Embora a maioria dessas empresas atue em setores têxtil e agrícola, o número de empresas de tecnologia na cadeia de suprimentos está crescendo. 

Até o momento, nenhuma empresa de semicondutores foi adicionada à Lista da UFLPA, mas empresas chinesas podem estar sob risco, especialmente de acordo com seus fornecedores. Isso é ainda mais relevante para companhias estatais, como a Semiconductor Manufacturing International Corp. (SMIC), maior fabricante de chips da China. 

Diante do aumento das restrições e potenciais entraves ao fazer negócios com entidades chinesas, muitas empresas estão optando por estabelecer relações de sourcing e parcerias com fornecedores em outros lugares — ou, se não encontram alternativas viáveis já existentes, dedicam-se a desenvolvê-las. 

A ascensão do nearshoring: mantendo a cadeia de suprimentos próxima

Durante décadas, as empresas terceirizaram partes da cadeia de suprimentos para diversas regiões do mundo por diferentes razões: redução de custos, acesso a know-how especializado, mitigação de riscos, entre outros. Para a maioria das empresas, quem produzia seus componentes e em qual local raramente era uma preocupação, a menos que o fabricante ou a região tivesse histórico de grandes perturbações.

Mas a pandemia mudou tudo. De 2020 até pelo menos 2022, empresas lutaram para entender por que não conseguiam obter componentes para seus produtos. Onde os componentes eram feitos — e por quem — tornou-se uma obsessão central, principalmente para empresas impactadas pela escassez de semicondutores. 

Após anos de noites sem dormir e prazos de entrega que chegavam a centenas de semanas, as empresas sobreviventes passaram a adotar um novo lema: nunca mais. Grandes e complexas cadeias de suprimentos, antes vistas como positivas, agora eram consideradas estruturas frágeis e repletas de vulnerabilidades. Uma paralisação fabril aqui, uma enchente ali — bastava uma ou duas pequenas interrupções para comprometer todo o fluxo. 

Os últimos anos apenas reforçaram esse entendimento, à medida que novos desafios logísticos surgiram para as empresas que dependem de fornecedores internacionais. Desde ataques de piratas no Mar Vermelho após o conflito entre Israel e Gaza — que reduziram em 75% o fluxo de cargas pelo Canal de Suez — até secas recorrentes no Canal do Panamá, as cadeias de suprimentos globais continuam sofrendo impactos de eventos que ameaçam os prazos de entrega dos produtos aos mercados. 

Para contornar esses problemas, que parecem não ter prazo para acabar, as empresas estão buscando trazer de volta (ou aproximar para países adjacentes) partes críticas da cadeia de suprimentos. 

O que isso significa para a indústria de semicondutores?

No fim das contas, distribuir a indústria de semicondutores entre diferentes regiões torna o setor mais resiliente diante de possíveis interrupções, como desastres naturais e tensões geopolíticas. No entanto, estabelecer esses polos industriais avançados e sofisticados do zero traz novos desafios, como captar investimentos, recrutar e capacitar mão de obra qualificada, além do tempo necessário para atingir plena capacidade produtiva.

Apesar desses obstáculos, essa mudança estratégica tende a aumentar a flexibilidade e a continuidade da indústria global de semicondutores — e dos negócios que dela dependem.