O choque dos minerais críticos: poucas empresas estão preparadas
Destaques do artigo:
- A China já domina o processamento e refino de diversos materiais estratégicos (terras raras, grafite, cobalto), e esse domínio só aumentou nos últimos anos.
- Enquanto os EUA e seus aliados intensificam investimentos em produção mineral doméstica, até as projeções mais otimistas indicam que a capacidade produtiva significativa dessas cadeias de suprimentos ainda está distante. Enquanto isso, a China bateu recorde de exportação de ímãs de terras raras em 2024, destacando a dependência global em relação à produção e licenciamento chineses.
- Existe uma série de ações possíveis para reduzir o risco associado a minerais críticos. Entre elas: obter declarações completas de materiais (FMDs, Full Material Declarations) para mapear dependências; mapear as cadeias de suprimentos até o nível de material para identificar dependências geográficas; e buscar formulações alternativas que removam minerais de alto risco dos produtos.
Muitas empresas buscam reduzir a dependência da China fazendo o fornecimento de componentes por mercados alternativos, como Brasil, Malásia e Turquia. Porém, poucas estão abordando outra dependência ainda mais crítica: os minerais críticos.
Diferentemente da fabricação de componentes, romper a dependência de fontes de minerais críticos é um desafio muito mais complexo e difícil de concretizar. Mas a independência dos fabricantes ocidentais se torna cada vez mais imediata à medida que os minerais críticos continuam sendo fonte de alavancagem da China nas guerras comerciais com os EUA.
Visão geral do domínio chinês em minerais críticos
A China já domina o processamento e refino de vários materiais de gargalo (terras raras, grafite, cobalto), e esse domínio só aumentou recentemente. Segundo a Agência Internacional de Energia, a participação média de mercado dos três maiores países em refino subiu de ~82% (2020) para 86% (2024) nos últimos quatro anos, com a China liderando o refino de terras raras, grafite e cobalto.
Somente nas terras raras, o U.S. Geological Survey informou que os Estados Unidos importaram cerca de 70% de seus compostos e metais de terras raras da China entre 2020 e 2023. E o U.S. Government Accountability Office ressaltou que a China é o único país com capacidade de processamento em todas as etapas da cadeia de ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB). Esses ímãs são essenciais para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs industriais e outras tecnologias avançadas com alta demanda.
A China não hesitou em usar essa dominância em minerais críticos como arma no cenário geopolítico global. Em julho de 2023, o país implementou exigências de licenciamento para exportação de gálio e germânio. Depois, em dezembro de 2024, impôs a proibição de exportação de itens “dual use” para os Estados Unidos, incluindo gálio, germânio, antimônio e outros materiais “superduros”. Apenas dois meses depois, em fevereiro de 2025, a China anunciou discretamente que exigiria licenças de exportação para minerais adicionais e todos os seus derivados: tungstênio, telúrio, bismuto, índio e molibdênio. Apesar desta última medida não visar exclusivamente os EUA, serve como nova retaliação àquilo que a China percebe como controles de exportação rigorosos dos americanos sobre semicondutores e tecnologia de IA.
Ford paralisa fábrica por falta de minerais
Em maio de 2025, a Ford confirmou o fechamento temporário de uma fábrica devido à falta de ímãs de terras raras em meio ao endurecimento do controle de exportação chinês. Esse episódio ilustrou como um único gargalo na cadeia de suprimentos pode interromper as operações de um fabricante multibilionário.
O fechamento na Ford expôs a vulnerabilidade dos fabricantes norte-americanos a interrupções na cadeia de minerais críticos. A fábrica afetada, que produzia componentes para veículos elétricos, dependia fortemente de ímãs de terras raras provenientes da China, essenciais para motores de EV, turbinas eólicas e tecnologias de defesa. Com a demora nas licenças de exportação e disparada dos preços, a Ford precisou interromper a produção por semanas, paralisando funcionários e atrasando entregas de toda a sua linha EV. Os efeitos se espalharam pelo setor automotivo, com fornecedores buscando alternativas e analistas alertando que uma escassez prolongada pode aumentar os custos para consumidores.
O fechamento na Ford expôs a vulnerabilidade dos fabricantes norte-americanos a interrupções na cadeia de minerais críticos.
A crise chamou rapidamente a atenção de Washington. O governo Trump interveio com medidas emergenciais, incluindo o uso da Defense Production Act e a agilização de projetos nacionais de terras raras para reduzir a dependência das cadeias de suprimentos chinesas.
Um panorama de dependência
Apesar dos investimentos crescentes dos EUA e aliados na produção mineral nacional, mesmo projeções otimistas apontam para anos até que surja uma capacidade relevante nessas cadeias de suprimentos. Enquanto isso, a China bateu recorde de exportação de ímãs de terras raras em 2024 (58.152 toneladas), ressaltando a dependência global do fornecimento e licenciamento chinês.
Se a China restringir ainda mais o acesso — ou simplesmente atrasar aprovações de licenças — o impacto sobre os fabricantes ocidentais será imediato. As consequências podem incluir aumento repentino de preços, projetos não finalizados, escalonamentos de clientes e paradas de linha.
Como as empresas podem reduzir esse risco?
Há diferentes níveis de respostas que as empresas podem adotar para mitigar o risco relacionado aos minerais críticos. A seguir, três caminhos-chave para reduzir efetivamente esses riscos:
- Mapeie o uso de minerais críticos com declarações completas de materiais (FMDs)
- Coletar Full Material Declarations (FMDs): Essa tarefa pode parecer desafiadora se você possui múltiplos produtos e milhares de componentes. Por isso, recomendamos que o foco seja, inicialmente, nos componentes mais críticos.
- Desenvolver um processo padronizado de solicitação: Crie templates e métodos de contato padronizados para solicitar FMDs aos fornecedores de forma recorrente. Esses recursos ajudam a empresa a entender a dimensão total de suas dependências de minerais e substâncias químicas.
- Audite seus dados em busca de lacunas: Mesmo que você já possua algumas informações de FMD, elas podem estar desatualizadas, incompletas ou prejudicadas por inconsistências. É fundamental identificar essas lacunas para aprimorar o entendimento geral do risco na cadeia de suprimentos.
- Mapeie seus componentes em relação a materiais restritos para visualizar totalmente o risco
- Mapear materiais restritos: Colete e analise dados de materiais para identificar quais componentes ou conjuntos incluem gálio, germânio, terras raras ou outros elementos controlados. Priorize os elementos mais críticos para construir um panorama claro das dependências.
- Avaliar impacto por componente: Avalie quais materiais restritos representam maior risco à produção ou ao cumprimento de compromissos com clientes, considerando sua função nos conjuntos principais e a exposição a interrupções regulatórias ou de fornecimento.
- Modelar cenários regulatórios: Realize análises de “e se” para entender como restrições de minerais ou outros riscos regulatórios podem afetar a cadeia de suprimentos. Os resultados desse planejamento ajudam a direcionar ações de gestão proativa de risco, inclusive sourcing alternativo, formação de estoques ou até atualizações de produto.
- Identifique onde é possível adotar alternativas nos projetos
- Transferir para regiões não restritas: Identifique e priorize fornecedores que forneçam minerais críticos de regiões sem restrições de exportação para manter a continuidade do abastecimento. No entanto, essa ação pode parecer simples — buscar fornecedores de minerais críticos e REEs fora da China — mas nem sempre é assim. Empresas chinesas têm participação societária em minas globalmente, inclusive na África e América do Sul, o que pode tornar essas fontes menos estáveis do que parecem. Sempre que possível, priorize fornecedores sem vínculos com empresas chinesas para garantir maior segurança.
- Forneça componentes sem materiais restritos: Trabalhe com as equipes de engenharia e compras para qualificar componentes que eliminem gálio, germânio, terras raras ou outros elementos restritos dos projetos.
- Pré-qualifique e teste alternativas: Avalie, teste e certifique substitutos logo no início do processo de desenvolvimento para garantir desempenho, confiabilidade e conformidade.
Minerais críticos agora são prioridades em gestão de risco
Monitorar minerais críticos é essencial para uma gestão de risco eficaz nas cadeias de suprimentos complexas atuais. Sem visibilidade clara sobre onde estão os materiais restritos ou de alto risco nos seus produtos, é praticamente impossível antecipar interrupções, atender regulamentações em evolução ou planejar estratégias de substituição. Ao mapear ativamente os materiais, avaliar seus impactos e simular cenários regulatórios, as empresas conseguem tomar decisões mais informadas de fornecimento. Essas decisões reduzem rupturas, fortalecem o compliance e constroem cadeias de suprimentos mais resilientes diante das incertezas geopolíticas e de mercado.
A plataforma de supply chain risk management (SCRM) Z2Data oferece recursos para que as organizações compreendam suas vulnerabilidades em minerais críticos e REEs. O mapeamento detalhado da cadeia de suprimentos vai por múltiplos níveis, mostrando aos usuários de quem seus fornecedores diretos compram e as dependências geográficas dos principais materiais. Com o suporte das equipes especializadas da Z2Data, sua empresa obtém insights aprofundados sobre o papel da China em suas cadeias de minerais e descobre as alternativas estrategicamente viáveis para o seu contexto.
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