Forever Chemicals: passado, presente e futuro do PFAS

PFAS, também conhecidos como "forever chemicals" (substâncias químicas eternas), já foram usados em tudo, de capas de chuva a produtos eletrônicos. Mas sua popularidade está em risco à medida que aumentam as preocupações com o impacto dessas substâncias na saúde e no meio ambiente.

Forever Chemicals: passado, presente e futuro do PFAS

Forever Chemicals: O Passado, Presente e Futuro dos PFAS

  • PFAS (Substâncias Per- e Polifluoroalquil) são conhecidos como “forever chemicals” devido à sua extrema estabilidade e resistência à degradação.
  • Forever chemicals têm diversas aplicações industriais devido às suas propriedades únicas, incluindo jaquetas impermeáveis, panelas antiaderentes e revestimentos em eletrônicos.
  • Sua persistência no ambiente, longos períodos de meia-vida e acúmulo no corpo humano despertam preocupações quanto aos impactos à saúde e ao meio ambiente.
  • Forever chemicals podem interferir no sistema endócrino, suprimir o sistema imunológico e causar outros efeitos adversos à saúde humana.
  • A administração Biden está adotando medidas para combater a contaminação por PFAS por meio de pesquisas, regulamentação e investimentos em esforços de limpeza.

Segundo estimativas recentes, existem até 350.000 produtos químicos e misturas químicas em produção comercial com os quais podemos ter contato de diferentes formas. Esses produtos químicos estão presentes em tudo, desde móveis e roupas até utensílios de cozinha, cosméticos e eletrônicos. Enquanto muitos deles não apresentam riscos significativos para humanos, animais silvestres ou ecossistemas, alguns compostos ganharam notoriedade pela destruição ambiental e deterioração que causam. 

Então, onde os forever chemicals se encaixam nesse cenário? 

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O que são Forever Chemicals? 

Vamos começar observando o nome técnico: PFAS. PFAS significa substâncias per- e polifluoroalquil. 

PFAS formam uma grande família química, abrangendo mais de 9.000 substâncias altamente fluoradas. O principal fator comum entre elas é a presença de átomos de carbono ligados a átomos de flúor. Essa ligação carbono-flúor torna os PFAS extremamente estáveis, tanto termicamente quanto quimicamente — ou seja, são resistentes a altas temperaturas e demoram muito para degradar. Também são muito eficientes em repelir água, gordura e manchas.

Examples of PFAS

Onde os PFAS Estão Presentes em Aplicações Domésticas 

Essas propriedades únicas e bastante vantajosas contribuem para sua utilização em uma ampla variedade de produtos e aplicações. Alguns exemplos são jaquetas impermeáveis, panelas antiaderentes, protetores solares e revestimentos de eletrônicos. Simplificando, os PFAS são aspectos invisíveis, mas onipresentes, do cotidiano. Estão nos tecidos das roupas que usamos, nos utensílios de cozinha, nas loções aplicadas na pele. Embora a maioria das pessoas quase nunca pense nesses produtos químicos, eles estão intimamente ligados à utilidade e conveniência que definem nossa vida moderna eficiente. 

Por que PFAS são chamados de Forever Chemicals 

Enquanto muitas das propriedades dos forever chemicals representam benefícios para os produtos, uma dessas características resultou em um cenário mais complexo. Devido à notável estabilidade química conferida pela ligação carbono-flúor — uma das mais fortes conhecidas — os PFAS passaram a ser chamados de “forever chemicals” pela imprensa e em debates públicos. 

O título é extremamente apropriado. 

Muitos desses forever chemicals têm meia-vida superior a 1.000 anos no solo e mais de 40 anos na água. (Meia-vida é o tempo necessário para que a concentração de um produto químico diminua pela metade em determinado meio.) Mais preocupante ainda é o fato de que, no corpo humano, os níveis de PFAS demoram cerca de quatro anos para cair pela metade. Só para comparação, o limite para que um produto químico seja considerado “muito persistente”, segundo a regulação química da União Europeia, é de meia-vida de 180 dias no solo e 60 na água. Ou seja, a família PFAS demonstra persistência extrema em quase qualquer meio, inclusive em organismos vivos. 

Nas últimas décadas, cientistas buscam entender melhor as consequências dessa persistência incomum. O que significa a resistência extraordinária dos forever chemicals à degradação para nossos ambientes, para a fauna global e para a saúde de longo prazo das pessoas? 

Como os Forever Chemicals se Tornaram Praticamente Onipresentes

Apesar dos milhares de PFAS existentes, historicamente os mais utilizados são o ácido perfluorooctanoico (PFOA) e o sulfonato de perfluorooctano (PFOS). 

Outros PFAS amplamente difundidos incluem PFNA, PFDA, PFOS e PFBS. PFOS e PFOA são considerados PFAS de “cadeia longa” porque possuem oito átomos de carbono (formando uma cadeia longa), todos, exceto um, ligados a átomos de flúor. Antes dos experimentos realizados por cientistas da indústria química e de manufatura no século 20, a ligação carbono-flúor era extremamente rara. Atualmente, ela está presente praticamente em todo o planeta. 

Apesar da ampla presença atual, os PFAS existem há cerca de apenas 75 anos. O primeiro composto PFAS, o politetrafluoretileno, foi sintetizado pela DuPont em seu laboratório Jackson, em Deepwater, Nova Jersey, em 1938. Foram necessários oito anos de pesquisa até que esse composto fosse lançado no mercado, na forma da durável, antiaderente e resistente resina conhecida como Teflon (ou PTFE). Alguns anos depois, no início dos anos 1950, dois cientistas da 3M buscavam desenvolver um novo tipo de borracha para linhas de combustível de aviões quando descobriram um PFAS que seria usado para criar o Scotchgard, acabamento repelente a manchas e água utilizado em estofados, carpetes e outros tecidos. 

Por que os Forever Chemicals se Tornaram tão Populares 

Após a invenção desses dois produtos — que se tornariam marcas icônicas — os PFAS começaram a se disseminar pelas indústrias de manufatura. Entusiasmadas com as melhorias nos produtos e com as oportunidades comerciais que os fluorcarbonos proporcionavam, as empresas passaram a incorporá-los em uma grande variedade de produtos de consumo. A resistência a calor, água, manchas e degradação permitia o uso dos PFAS em revestimentos de dezenas de itens essenciais. Calçados, roupas, equipamentos esportivos, embalagens alimentícias e cosméticos passaram a receber tratamento com forever chemicals. 

Forever Chemicals

O uso de PFAS não ficou restrito a alguns setores de bens de consumo. Nos anos 1960, o exército americano fez parceria com a 3M e passou a usar PFAS em espumas especiais contra incêndios conhecidas como AFFF (Aqueous Film-Forming Foams). Essas espumas, que usam fluorcarbonos para combater incêndios líquidos e evitar reignição, se tornaram parte permanente da infraestrutura de emergência em aeroportos, bases militares, quartéis de bombeiros e instalações de combustíveis no mundo todo. 

Como DuPont e 3M Contribuíram para a Produção em Massa dos Forever Chemicals

Nas primeiras décadas de existência desses compostos, a produção era dominada por duas empresas: 3M e DuPont. A 3M, fundada em 1902 como Minnesota Mining and Manufacturing Company, inaugurou em 1947 um grande centro de pesquisa e produção em Cottage Grove, Minnesota. Nessa planta, a 3M produziu os PFAS para o Teflon, e também os químicos usados no Scotchgard. Já a DuPont lançou oficialmente, em 1948, a fábrica Washington Works, em Parkersburg, West Virginia. No restante do século, o site foi o polo de produção de muitos dos produtos Teflon da companhia. 

Em pouco mais de três décadas, os PFAS e as empresas que os sintetizavam se tornaram peças essenciais na manufatura global, presentes em diferentes setores e profundamente inseridos na cadeia de suprimentos mundial. Entretanto, enquanto esses compostos inovadores tornavam produtos mais resistentes e versáteis — conferindo uma “invulnerabilidade” a processos que antes degradariam a qualidade ao longo do tempo —, eles também começavam a se espalhar discretamente pela atmosfera, águas, solo, e até pelo corpo humano. Devido à sua meia-vida extremamente longa, esse processo silencioso teria grandes impactos para a saúde e o meio ambiente por décadas. 

A Percepção Pública Inicial sobre os Forever Chemicals

Durante boa parte do século 20, na ascensão dos PFAS e no chamado “Século Químico”, a maioria dos consumidores não desconfiava que os PFAS eram tóxicos ou prejudiciais. Pelo contrário, eram celebrados: uma inovação científica revolucionária que elevava a qualidade de vida de milhões de pessoas. O olhar público era, em geral, positivo e pouco questionador. Porém, por trás do sucesso desses produtos, havia um panorama bem mais complexo e problemático. 

Descobrindo os Efeitos dos Forever Chemicals: Exposição Química Generalizada 

Já nos anos 1970, profissionais da 3M perceberam que os PFAS estavam se acumulando no sangue humano. Pesquisas internas feitas em animais de laboratório comprovaram a toxicidade desses compostos. Mesmo com a criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) em 1970, 3M e DuPont não compartilharam essas pesquisas por décadas. Levaria muitos anos até que a toxicidade dos PFAS fosse reconhecida publicamente e surgissem regulações no setor químico. 

PFAS Exposure

Dois eventos em 1999 trouxeram o tema à tona. Primeiro, após uma análise nacional, a EPA detectou PFAS em amostras de sangue de 98% da população dos EUA. Essa revelação apontou, segundo a Agency for Toxic Substances and Disease Registry, para uma “exposição química em larga escala.” Separadamente, um fazendeiro em Parkersburg, West Virginia, processou a DuPont, alegando que o descarte de resíduos tóxicos da empresa teria causado a morte misteriosa de dezenas de bovinos (o caso inspirou o filme Dark Waters, de 2019). O julgamento revelou que a DuPont havia descartado milhares de toneladas de PFAS em um aterro próximo à propriedade. Os resíduos contaminaram o fornecimento de água, não só dos animais, mas de cerca de 80.000 pessoas em Ohio e West Virginia. 

O Lançamento do PFOA Stewardship Program como Resposta

Após essas descobertas, iniciou-se um ajuste de conduta. Após meio século produzindo PFAS sem consequências e acumulando bilhões em lucros, DuPont e 3M precisaram responder não só à EPA, mas a uma população cada vez mais consciente de décadas de omissão corporativa. Em 2000, a 3M anunciou o fim da produção de PFOA e PFOS — os forever chemicals mais usados. Investigações posteriores mostraram que a empresa já conhecia os riscos ambientais e éticos de persistir na produção dessas substâncias. Nos anos seguintes, a Minnesota Pollution Control Agency constatou que diversos aterros da 3M nas proximidades de Cottage Grove estavam contaminando águas subterrâneas e pescado local com altos índices de PFAS. 

Anos depois, em 2006, a EPA fechou um acordo chamado PFOA Stewardship Program. O compromisso previa que oito grandes corporações globais, incluindo DuPont e 3M, eliminassem totalmente a produção de PFOA e outros PFAS de cadeia longa até 2015. Um artigo publicado em 2021 no Frontiers in Toxicology aponta os efeitos positivos: o “abandono desses compostos” resultou em queda das concentrações de PFOS e PFOA no sangue da população entre 2000 e 2015.” 

Resposta da Indústria: Transição para PFAS de Cadeia Curta 

O PFOA Stewardship Program, porém, não encerrou o ciclo dos PFAS. Em vez disso, provocou uma transição, em toda a indústria, dos compostos de cadeia longa para substitutos de cadeia curta. Embora haja variações em função da estrutura, PFAS de cadeia longa geralmente possuem sete ou mais átomos de carbono na “espinha dorsal”; PFAS de cadeia curta têm seis ou menos. 

DuPont, 3M e o setor químico em geral defendem que os PFAS de cadeia curta são mais seguros e menos tóxicos. Estudos recentes, porém, colocam em dúvida essa afirmação. Infelizmente, pode levar anos até que se entendam integralmente os efeitos dos PFAS de cadeia curta sobre a saúde e o meio ambiente. Quando evidências concretas surgirem, danos importantes já poderão ter ocorrido. 

Analisando a Contaminação por PFAS: Saúde e Ecologia

A cronologia do abandono gradual dos PFAS de cadeia longa, como o PFOA e o PFOS, está bem documentada. Já entender as consequências reais à saúde e ao meio ambiente é tarefa mais complexa. O ponto de partida para a análise é identificar as vias de exposição: como os PFAS entram e se acumulam no corpo humano e na fauna. 

PFAS e os Caminhos Ambientais: O Caso da Água Potável 

Uma das mais notórias e bem documentadas vias de exposição é o consumo de água potável. A contaminação de água foi responsável por trazer à luz, em 1999, os perigos dos PFAS, quando o descarte feito pela DuPont perto da planta Washington Works contaminou o rio Ohio e o abastecimento de dezenas de milhares de pessoas. Estudos subsequentes realizados pela EPA detectaram concentrações de PFAS acima dos níveis recomendados em sistemas públicos de água que atendem milhões de americanos. O Environmental Working Group, organização focada em produtos tóxicos e responsabilização corporativa, mantém um mapa interativo mostrando a contaminação por PFAS na água em todos os 50 estados e 19 milhões de pessoas. 

EPA Drinking Water Issues

Embora o tema da água contaminada envolva narrativa de escândalos e encobrimentos, são os produtos de consumo — especialmente os alimentícios — que têm sido a principal via de exposição desde a introdução dos PFAS nos anos 1950. Os químicos aparecem frequentemente em embalagens de fast food, usadas por sua resistência à gordura. Desse ponto, migram para sanduíches, hambúrgueres, batatas fritas, saladas etc. Mesmo com declarações de intenção de grandes cadeias de fast food para eliminar o uso de compostos da lista dos forever chemicals, pesquisas recentes mostram que o uso segue disseminado no setor. 

Outra via relevante é a contaminação de peixes de água doce, devido à facilidade dos PFAS em migrar pelo solo, infiltrar-se nos lençóis freáticos e, por fim, atingir lagos e rios. Um estudo recente da EWG mostra que consumir uma única porção de peixe de água doce equivale, em termos de exposição aos PFAS, ao consumo de um mês inteiro de água contaminada por esses compostos. 

Efeitos dos Forever Chemicals na Saúde Humana 

Esses compostos penetraram por décadas na água, comida e até no ar que consumimos. No início dos anos 2000, a grande maioria dos americanos já apresentava algum nível de PFAS no sangue. Restam então duas perguntas: esses produtos químicos são perigosos para a saúde humana? E, em caso afirmativo, de que maneira? 

Qualquer análise sobre os efeitos negativos da exposição aos PFAS deve começar pelo C8 Health Project. O projeto resultou de um acordo coletivo contra a DuPont por ter contaminado o abastecimento de água nas proximidades da fábrica Washington Works, na West Virginia. O estudo epidemiológico envolveu quase 70.000 pessoas e os resultados foram alarmantes. Primeiro, constatou-se que os participantes tinham níveis de PFAS no sangue cinco vezes maiores do que outros grupos estudados. Em seguida, identificaram-se vínculos prováveis entre exposição a PFAS e seis doenças – incluindo problemas de tireoide, câncer de testículo e rim, e hipertensão induzida pela gravidez. 

Após o C8 Project, dezenas de outros estudos foram realizados para mapear os impactos dos PFAS na saúde humana. Descobriu-se que essas substâncias podem desregular o sistema endócrino, causando problemas hormonais; suprimir o sistema imunológico; afetar negativamente a função reprodutiva; e agravar o colesterol. O corpo de evidências acumulado nas últimas duas décadas demonstra, sem ambiguidades, que PFAS são prejudiciais à saúde humana em diversos aspectos. 

Como os PFAS Afetam o Meio Ambiente e a Fauna 

Pesquisas sobre os efeitos dos forever chemicals na fauna ainda são menos abrangentes e conclusivas, mas estudos indicam a presença dessas substâncias em mais de 330 espécies pelo mundo, incluindo mamíferos, aves, peixes e répteis de diversos portes. Há evidências, por exemplo, de que PFAS afetam o sistema imunológico de golfinhos e lontras marinhas, e o cérebro, a reprodução e os hormônios de ursos-polares. 

PFAS Affect the Environment and Wildlife

Pela facilidade de migração para águas subterrâneas, rios e oceanos, os PFAS geram atenção especial para a vida marinha. Apesar das maiores concentrações ocorrerem em águas próximas a fábricas químicas e estações de tratamento de esgoto, sua persistência e mobilidade levaram à dispersão dos PFAS até pontos remotos do planeta. Sabe-se também que PFAS interferem na reprodução e imunidade de aves aquáticas, mexilhões e peixes, além de serem altamente tóxicos a invertebrados e algas. Estudos mostram que níveis elevados desses compostos “reduzem a biomassa das algas e levam à toxicidade crônica”, segundo a Seaside Sustainability. As consequências ecológicas disso são imensas: por serem base das cadeias alimentares marinhas, qualquer redução significativa na biomassa das algas pode afetar muitas espécies interdependentes. É possível que as pesquisas atuais tenham apenas começado a dimensionar o real impacto dos PFAS para habitats oceânicos.

O Lento Avanço da Regulação dos PFAS 

Apesar de existirem desde os anos 1940, só no fim dos anos 1990 é que a EPA passou a considerar os PFAS uma possível ameaça à saúde humana. Após as descobertas de 1999 — níveis elevados de PFAS no sangue da população e o escândalo de contaminação de águas pela DuPont — a EPA intensificou a atuação regulatória. 

Em dezembro de 2002, publicou-se uma regra importante, chamada SNUR (Significant New Use Rule), exigindo que empresas químicas notificassem a agência antes de fabricar qualquer uma das 75 substâncias PFAS específicas. A SNUR não é um banimento, mas limita fortemente as circunstâncias em que esses químicos podem ser usados. (Segundo a própria EPA, a SNUR permitiu “a continuidade de poucos usos técnicos muito limitados dessas substâncias para os quais não existia alternativa.”) Nos anos seguintes, novas SNURs foram acrescentadas.

O movimento regulatório seguinte veio em 2006, com o chamado Stewardship Program, reunindo oito líderes de produção de PFAS. O acordo deu início à transição dos PFAS de cadeia longa para os de cadeia curta ao longo dos anos 2000 e 2010. Em 2016, a EPA publicou um Aviso de Saúde Provisório (Provisional Health Advisory) sobre PFOS e PFOA na água potável, estabelecendo que os níveis combinados dessas duas substâncias não deveriam exceder 70 partes por trilhão. Conforme a EPA, esse limite “oferece uma margem de proteção para todos os americanos ao longo da vida contra efeitos adversos.” O aviso impulsionou discussões e levou vários estados a testar a qualidade de suas águas. 

PFAS no Mundo: Regulamentação Internacional dos Forever Chemicals

Ao mesmo tempo em que os EUA aumentavam a regulação sobre PFAS, a comunidade internacional também passou a olhar para os perigos dessas substâncias. Em 2009, a Convenção de Estocolmo, tratado internacional para proteção contra poluentes orgânicos persistentes (POPs), incluiu o ácido perfluorooctanossulfônico (PFOS) e o fluoreto de perfluorooctanossulfonila (PFOSF) na lista de POPs. Isso significou que todos os mais de 150 países participantes concordaram em restringir severamente ou eliminar a produção e uso desses compostos. Em 2022, passaram a integrar a lista também o ácido perfluorooctanoico (PFOA) e o ácido perfluorohexanossulfônico (PFHxS). Outros órgãos internacionais, como a Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), também restringem a fabricação e o uso de PFAS específicos. 

O Presente: A Administração Biden e os Forever Chemicals 

Desde 2021, a administração Biden tem sido ainda mais rigorosa em relação aos PFAS. Em outubro daquele ano, a EPA divulgou o PFAS Strategic Roadmap, um plano multifacetado e “integrado” para enfrentar esses químicos, com diretrizes para pesquisar exposições e toxicidades; restringir o ingresso de mais PFAS no meio ambiente; e promover a remediação da contaminação já existente. O plano também define que o Office of Chemical Safety and Pollution Prevention deve garantir que os PFAS ainda em uso não apresentem novos riscos, impedindo a retomada de produção dos chamados PFAS “legados”. 

A Verdade Sobre os PFAS de Cadeia Curta 

Com o consenso estabelecido de que os PFAS de cadeia longa não são seguros, o foco agora recai sobre seus substitutos de cadeia curta. Como esperado, a indústria química há muito sustenta que essas novas gerações de PFAS seriam “significativamente mais seguras” do que os forever chemicals anteriores. Mas a CHEM Trust, organização do Reino Unido dedicada à conscientização sobre produtos químicos nocivos, contesta essa ideia. No relatório de 2019 sobre PFAS, a entidade afirma: “a indústria diz que os PFAS alternativos são ‘mais seguros’, mas os dados ambientais e toxicológicos para esses compostos emergentes geralmente são insuficientes.” 

Mesmo nos poucos anos desde esse relatório, surgiram pesquisas importantes que trazem preocupações sobre a nova geração de PFAS. Dois estudos publicados pela FDA em 2020 investigaram o 6:2 FTOH, um dos compostos de cadeia curta mais usados. Um dos estudos detectou bioacumulação em ratos de laboratório, mostrando que o produto se concentra no fígado, gordura e sangue dos animais, persistindo por mais de um ano. O outro estudo demonstrou que os argumentos da indústria sobre a segurança do 6:2 FTOH estavam parcialmente baseados em premissas erradas. Juntos, esses estudos alimentaram o debate — e até controvérsias — sobre até que ponto a EPA e outros órgãos deveriam ser mais rígidos na regulação da nova geração de PFAS. 

O Que é Necessário para Remover Forever Chemicals da Cadeia de Suprimentos 

Diante das evidências crescentes sobre os riscos sérios associados aos PFAS, muitas empresas passaram a adotar postura mais rigorosa e responsável perante a lista dos forever chemicals. Desde 2020, a ChemSec, organização sem fins lucrativos que defende a transição para produtos químicos mais seguros, lançou o “movimento corporativo dos PFAS”. Até hoje, mais de 50 empresas — incluindo H&M, Lacoste, New Balance e Ralph Lauren — aderiram à iniciativa, apoiando a regulamentação responsável dos PFAS e estimulando o abandono progressivo desses compostos nas cadeias globais de suprimentos. 

Ainda mais significativo, em 2022 a ChemSec reuniu mais de 50 investidores institucionais, com ativos superiores a US$ 11 trilhões, exigindo que as empresas químicas parassem de fabricar PFAS. O movimento culminou em uma carta enviada a fabricantes do mundo todo. A reação foi imediata: em apenas um mês, a 3M anunciou sua decisão de abandonar a produção dos PFAS, declarando que, seguindo as tendências de regulações, consumidores e investidores, passaria a “eliminar o uso de PFAS no portfólio global de produtos da empresa até o final de 2025.” Essa decisão de impacto tende a provocar reverberações importantes entre os grandes fabricantes globais de PFAS, levando outros a acelerar o fim de produção desses químicos cada vez mais indesejados. 

Removendo Forever Chemicals do Ambiente: Qual o Tamanho do Problema? 

Em grande parte devido à crescente conscientização sobre os riscos dos forever chemicals, o papel e a presença dos PFAS vêm diminuindo gradualmente na última década. No entanto, isso não altera o fato de que, nas palavras do advogado ambiental Rob Bilott, essas substâncias estão “no sangue de praticamente todas as pessoas do planeta” (além da enorme infiltração no ambiente natural). Um dos desafios centrais enfrentados por comunidades, governos e organizações sociais é a necessidade de promover ações de limpeza para reverter parte dos danos ecológicos causados pelos forever chemicals. 

Há poucas técnicas para remediação de PFAS — e a maioria tem sucesso limitado. O método mais estudado é o carvão ativado granular (GAC – Granular Activated Carbon). O GAC é produzido a partir de matérias-primas orgânicas ricas em carbono, como carvão mineral, madeira e casca de coco. No processo, o carvão ativado adsorve PFAS presentes na água ou solo. (A adsorção é o processo químico em que moléculas de gás, líquido ou sólidos dissolvidos se fixam na superfície de um material sólido.) Segundo a EPA, o GAC é muito eficaz na remoção de PFAS de cadeia longa, como PFOA e PFOS, de ambientes contaminados. Infelizmente, é menos efetivo na remoção de PFAS de cadeia curta.

Como parte do esforço contínuo contra PFAS e outros químicos tóxicos, em fevereiro a administração Biden destinou US$ 2 bilhões para que estados e territórios enfrentem a contaminação da água. Embora seja uma medida relevante para um governo que avançou mais do que qualquer antecessor no combate aos impactos dos PFAS, a escala da contaminação nos EUA sugere que o valor ainda é insuficiente. Segundo relatório recente da Minnesota Pollution Control Agency (MPCA), o custo para remover PFAS dos fluxos de águas residuais no estado poderia variar entre US$ 14 e 28 bilhões. Embora Minnesota — lar da 3M e sua fábrica em Cottage Grove — possua índices de contaminação que talvez não reflitam o quadro nacional, valores tão altos evidenciam o tamanho do problema. 

Forever Chemicals em Bases Militares 

Um desafio adicional para a remediação dos PFAS é apresentado pelas centenas de instalações militares nos EUA. Após décadas usando as espumas AFFF em treinamentos e emergência, essas bases e comunidades vizinhas convivem hoje com níveis desproporcionais de PFAS em seus sistemas de água potável. Uma análise recente do Environmental Working Group estima que remover PFAS de 50 dessas bases custaria mais de US$ 30 bilhões. E embora o Departamento de Defesa já tenha investido bilhões na remediação, o orçamento segue insuficiente diante do tamanho das necessidades. 

Esses exemplos ilustram nitidamente o esforço do governo dos EUA para eliminar os forever chemicals do ambiente e da infraestrutura pública. O grau de contaminação, porém — aliado aos altos custos do GAC e outras tecnologias —, transforma essa tarefa em desafio de proporções imensas. 

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Substituindo PFAS na Cadeia de Suprimentos 

Devido à versatilidade de uso e à integração dos forever chemicals em tantos setores nas últimas seis décadas, substituir os PFAS será um enorme desafio. Como resume um artigo de 2015 sobre alternativas aos PFAS, “é difícil encontrar substitutos que tenham função e desempenho equivalentes.” Uma dificuldade adicional ao abandono dos PFAS é o fato de que a indústria adotou, em larga escala, os PFAS de cadeia curta — que podem ser apenas marginalmente menos perigosos. Ouso de soluções transitórias, para atender momentaneamente aos reguladores e ao público, pode prolongar ainda mais o problema. Sem mudanças radicais na fabricação química, a transição para longe desses compostos tóxicos será lenta.

Um avanço promissor está nos Chemical Alternative Assessments (CAA) — estudos que, geralmente realizados por órgãos públicos, identificam alternativas viáveis aos PFAS em produtos de consumo. Em 2021, por exemplo, o estado de Washington realizou um CAA que resultou na proibição de quatro tipos de embalagens alimentícias no estado. Os CAAs patrocinados pelo poder público beneficiam tanto empresas quanto consumidores, ao promover buscas abrangentes por alternativas químicas e não-químicas que indústrias podem adotar para substituir PFAS. 

No curto prazo, CAAs são mecanismos úteis para apoiar empresas na transição longe dos forever chemicals sem impactar drasticamente a viabilidade dos produtos. Já a médio e longo prazo, será necessário adotar medidas mais restritivas. Se quisermos de fato começar a reverter décadas de PFAS contaminando nossos corpos e ecossistemas, autoridades reguladoras nacionais e globais precisarão estabelecer e aplicar uma proibição abrangente de todas as gerações e variações desses dangerous e até fatais forever chemicals.