Onde estão atualmente a ser construídas fábricas de semicondutores em todo o mundo?

O setor de fabrico de semicondutores continua a crescer, com novas fábricas e expansões de unidades de produção existentes nos EUA, Ásia e outras regiões-chave de fabrico.

Onde estão atualmente a ser construídas fábricas de semicondutores em todo o mundo?

Destaques do artigo:

  • Os semicondutores são atualmente tanto uma base económica como um ponto de tensão geopolítica. A COVID-19 revelou os custos das situações de escassez, enquanto a competição entre os EUA e a China colocou a produção de semicondutores no centro da política comercial e de segurança nacional.
  • Nos Estados Unidos, estão atualmente planeadas ou em construção dezassete unidades fabris («fabs»). Muitas destas instalações focam-se na produção avançada de semicondutores, com a Samsung Foundry e a TSMC a planear unidades para fabrico de nós de 4 nm e 5 nm. Em toda a Ásia—incluindo Japão, Singapura, Índia, Coreia do Sul e Taiwan—estão em desenvolvimento 23 novas unidades fabris, com a maioria a iniciar a produção até ao final de 2025.
  • Muitas destas novas fábricas privilegiam nós semicondutores avançados, definidos geralmente como chips abaixo de 7 nm. Chips a estes níveis são essenciais para diversas aplicações, desde eletrónica de consumo, como portáteis e smartphones, até aos processadores de alto desempenho utilizados em centros de dados que suportam cargas de trabalho de IA e computação avançada.

A cadeia de abastecimento global de semicondutores tornou-se cada vez mais frágil. A pandemia de COVID-19 expôs os riscos da concentração da produção de semicondutores em poucas regiões, enquanto as tensões comerciais entre os EUA e a China colocaram os semicondutores no centro de uma rivalidade estratégica.

Durante a pandemia, a procura por produtos eletrónicos disparou e coincidiu com encerramentos de fábricas em toda a Ásia, onde se encontra a maioria da produção mundial de semicondutores. Estas interrupções deixaram as empresas perante longos prazos de entrega e grandes ruturas de stock, especialmente em setores como o automóvel e a eletrónica de consumo.

As preocupações em torno dos semicondutores vão agora para além da simples oferta e procura. A segurança nacional, as restrições à exportação e a concentração geográfica da produção de semicondutores avançados no Leste Asiático evidenciam os riscos de uma dependência excessiva de fontes externas.

Um retrato de cinco anos da fragilidade na cadeia de abastecimento de semicondutores

Como a COVID-19 expôs dependências dos chips

A pandemia marcou um ponto de viragem na perceção global dos riscos ligados à cadeia de abastecimento de chips.

O confinamento interrompeu a produção ao mesmo tempo que a procura por PCs, smartphones e consolas de jogos disparava. Os fabricantes automóveis, prevendo um abrandamento prolongado, reduziram as suas encomendas de chips, para depois se depararem com dificuldades em garantir o abastecimento quando a recuperação da procura foi mais rápida do que o previsto.

Estas dinâmicas deixaram empresas meses à espera de componentes essenciais. Mesmo grandes fabricantes tiveram dificuldades em aceder aos chips necessários. Empresas dos setores automóvel e de eletrónica de consumo encontraram-se frequentemente em concorrência direta pela limitada capacidade disponível, expondo a fragilidade das cadeias de abastecimento.

O impacto da guerra comercial na produção de semicondutores

Para além das forças de mercado, os semicondutores tornaram-se um fator de tensão e disputa no contexto das relações entre os EUA e a China. Nos últimos anos, ambos os governos tomaram medidas para proteger as suas indústrias internas e restringir o acesso a tecnologias críticas.

Cronologia das principais políticas (2020-2025)

  • Maio de 2020: O Departamento do Comércio dos EUA restringiu os envios de semicondutores para a Huawei, limitando o seu acesso a chips avançados. A FCC designou ainda a Huawei como risco para a segurança nacional, proibindo as empresas norte-americanas de utilizarem fundos federais para adquirirem o respetivo equipamento.
  • Agosto de 2022: O Presidente Biden assinou o CHIPS and Science Act, alocando cerca de 52 mil milhões de dólares para reforçar a produção e investigação de semicondutores nos EUA.
  • Outubro de 2022: Os EUA anunciaram controlos à exportação que restringem o acesso da China a semicondutores avançados usados em inteligência artificial e supercomputação, invocando preocupações de segurança nacional.
  • Dezembro de 2022: Os EUA adicionaram empresas chinesas, incluindo a fabricante de memórias YMTC, à Entity List, restringindo o seu acesso à tecnologia norte-americana de semicondutores.
  • Maio de 2023: A China proibiu a utilização de chips da Micron em projetos de infraestruturas críticas.
  • Agosto de 2023: A China restringiu as exportações de gálio e germânio, dois materiais essenciais para a produção de semicondutores.
  • Outubro de 2023: Os EUA agravaram as restrições relativas a chips de IA avançados, incluindo alguns desenhados pela Nvidia, para impedir tecnologias sensíveis de chegarem à China.
  • Outubro de 2024: O Departamento do Comércio dos EUA implementou novos controlos à exportação, restringindo a venda de 24 tipos de equipamentos de fabrico de semicondutores e três tipos de ferramentas de software para a China. 
  • Outubro de 2024: Em resposta às ações dos EUA, a China anunciou controlos à exportação sobre vários artigos de dupla utilização, incluindo materiais e tecnologias avançadas de semicondutores. 
  • Maio de 2025: O Departamento do Comércio dos EUA anunciou que, a partir de 16 de abril de 2025, as empresas terão de obter licenças de exportação para enviar chips avançados de IA—nomeadamente os modelos H20 da Nvidia e MI308 da AMD—para a China.
  • Junho de 2025: O Departamento do Comércio dos EUA anunciou que está a ponderar revogar autorizações concedidas a fabricantes mundiais de chips, incluindo a Samsung, SK Hynix e TSMC, para receberem bens e tecnologia dos EUA nas suas instalações na China.
  • Setembro de 2025: A Administração do Ciberespaço da China ordenou às principais empresas tecnológicas, incluindo a ByteDance e a Alibaba, que deixassem de adquirir os mais recentes chips de IA da Nvidia, o RTX Pro 6000D, e que anulassem encomendas existentes.

O futuro incerto de Taiwan

Taiwan continua a ser o principal polo mundial de produção de semicondutores avançados. No entanto, o seu estatuto político acrescenta incerteza ao papel que poderá desempenhar no futuro da produção global de chips. O governo chinês considera Taiwan parte do seu território e não excluiu o uso de força para alcançar a unificação. Segundo o Congressional Research Service dos EUA, a China enfatiza a resolução pacífica, sem abdicar de uma forte presença militar como parte da sua estratégia alargada.

Esta tensão geopolítica cria riscos significativos para empresas que dependem do abastecimento de chips taiwaneses. Qualquer interrupção na capacidade de produção de semicondutores em Taiwan teria consequências a nível global, reforçando a necessidade urgente de construir cadeias de abastecimento mais resilientes.

Porque o futuro da produção de semicondutores é cada vez mais doméstico

Os semicondutores são hoje tanto uma âncora da economia como um fator geopolítico central. A COVID-19 mostrou os custos das ruturas de stock, enquanto a competição EUA-China colocou a indústria dos semicondutores no cerne das políticas comercial e de segurança nacional.

Após cinco anos marcados por escassez, restrições à exportação e respostas geopolíticas, não surpreende que os Estados Unidos (e grande parte da Europa) estejam a investir fortemente na produção de chips a nível nacional. Embora a criação e expansão de unidades fabris na América do Norte não seja novidade, a rápida proliferação destas instalações—aliada a anúncios públicos de investimento por parte de grandes empresas e fabricantes—reflecte uma mudança estratégica para promover a resiliência da cadeia de abastecimento e reduzir a dependência da Ásia Oriental.

Onde são atualmente produzidos a maioria dos semicondutores?

A Ásia domina a produção global de semicondutores. Segundo a Boston Consulting Group e a Semiconductor Industry Association, Taiwan fabrica cerca de 60% dos chips mundiais e mais de 90% dos semicondutores avançados. A Coreia do Sul destaca-se também na produção de memórias, enquanto a China tem reforçado de forma constante a sua capacidade nacional.

Resumo

Em suma, os semicondutores estão sob os holofotes e os EUA—assim como fabricantes fora da China—têm razões para se preocuparem com a sustentabilidade a longo prazo da forte dependência de chips produzidos em Taiwan e na China. Tendo em conta estes riscos futuros, os EUA começaram a investir significativamente na produção doméstica de semicondutores. 

Eis um panorama das unidades fabris de semicondutores em quatro das principais regiões produtoras, em setembro de 2025:

Novas fábricas de semicondutores por região 

Novas/Em produção: Fábricas por região (2023-2025)

Este gráfico mostra as novas fábricas de semicondutores que foram publicamente anunciadas e se encontram em fase de planeamento ou já em construção.

Em setembro de 2025, a China contava com duas unidades fabris em produção, ambas com conclusão prevista para o final do ano. Uma, situada na cidade portuária de Guangzhou, irá produzir nós de 22 nm, 40 nm e 55 nm, com uma capacidade mensal de 40 000 bolachas de silício. A outra, em Wuxi, perto de Xangai, destina-se à produção de nós de 40 nm, 55 nm e 65 nm, com uma capacidade mensal de 83 000 bolachas.

Nos Estados Unidos, estão planeadas ou em construção dezassete fábricas, muitas das quais centradas em produção avançada de semicondutores, com a Samsung Foundry e a TSMC a planear unidades para 4 nm e 5 nm.

Pela Ásia—incluindo Japão, Singapura, Índia, Coreia do Sul e Taiwan—23 novas fábricas estão em desenvolvimento, com a maioria a iniciar operações no final de 2025. A Rapidus Corporation, no Japão, anunciou planos para produzir nós de 1 nm e 2 nm, enquanto a TSMC aponta para nós de 1,4 nm e 2 nm. Outros países concentram-se em semicondutores «legacy», como a Índia (65 nm), Singapura (40 nm e 130 nm) e Malásia (28 nm e 40 nm).

Expansões na produção de semicondutores por região

Expansões de fábricas por região (2023-2025)

As expansões de fábricas já existentes mantêm-se uma parcela relevante, mas relativamente reduzida, no panorama global da produção de semicondutores. Em 2025, a China prevê concluir quatro expansões, todas centradas em nós de 28 nm—uma tecnologia «legacy» que continua fundamental em produtos desde eletrónica de consumo a sistemas automóveis.

No Japão, haverá expansões em duas fábricas, focadas em chips lógicos e sensores de imagem, com produção de nós entre 3 nm e 28 nm; uma delas deverá alcançar uma capacidade mensal de 50 000 bolachas.

Nos EUA, estão previstas sete expansões, com forte aposta nos chips avançados. A TSMC prepara-se para fabricar nós de 2 nm e 3 nm nas suas unidades do Arizona, com arranque operacional previsto para 2026 e 2028, respetivamente. Em paralelo, as expansões da GlobalFoundries e da Texas Instruments visam sobretudo nós de 28 nm ou superiores—projetando a produção norte-americana para uma posição mais competitiva face à China no mercado de semicondutores «legacy».

Fábricas de semicondutores na América do Norte por proprietário

Fábricas norte-americanas por proprietário (2025)

A TSMC domina as manchetes, mas a Samsung Foundry lidera em número total de novas fábricas de semicondutores. Cerca de 50% das fábricas planeadas (incluindo novas unidades, já em operação e expansões) serão da Samsung Foundry. 

A TSMC domina as manchetes, mas a Samsung Foundry lidera em número total de novas fábricas de semicondutores.

Unidades fabris de semicondutores por estado

Fábricas de semicondutores por estado (2025)

O Texas mantém um papel central na produção de semicondutores, com incentivos estaduais e federais a promover novos investimentos em toda a região. Em 18 de setembro de 2025, o Texas Semiconductor Innovation Fund (TSIF)—um programa estadual criado para reforçar a capacidade local—atribuiu à Samsung Austin Semiconductor, subsidiária da Samsung, uma subvenção de 250 milhões de dólares.

A Samsung Foundry está na linha da frente destes investimentos, com 12 fábricas previstas para Taylor e Austin. Dez destas serão novas instalações e duas correspondem a expansões de fábricas já existentes.

Porquê escolher o Arizona e o Texas para produção de semicondutores?

O Arizona oferece várias vantagens para projetos de produção de semicondutores, incluindo:

  • 300 dias de sol por ano, proporcionando condições favoráveis para energia solar.
  • Baixa atividade sísmica, graças à ausência de falhas geológicas na região.
  • Ausência de grandes catástrofes naturais, como furacões ou inundações.
  • Isolamento natural devido às suas características geográficas.
  • Paisagem desértica com abundância de terrenos disponíveis, e poucos obstáculos naturais—como montanhas ou árvores—a condicionar a construção. 

O Texas dispõe de um leque único de vantagens para empresas de semicondutores. O estado, já líder em tecnologia de semicondutores (e local onde foi construído o primeiro semicondutor do mundo), aprovou em 2023 a sua própria CHIPS Act, que atribui 698 milhões de dólares para novos semicondutores e 660 milhões para criação de centros avançados de investigação e desenvolvimento na University of Texas at Austin e na Texas A&M University. Promulgada quase um ano após a CHIPS and Science Act de Biden, a lei visa:

  • Aproveitar os investimentos do Texas no setor dos semicondutores
  • Incentivar a expansão de empresas relacionadas com semicondutores no estado
  • Desenvolver a especialização e capacidade das instituições de ensino superior do Texas.

A lei criou também o Texas Semiconductor Innovation Consortium (TSIC) e o TSIF. 

Que tipos de tecnologia estão a ser produzidos nestas fábricas?

Muitas das novas fábricas estão a dar prioridade a nós avançados de semicondutores, definidos geralmente como chips abaixo de 7 nm.

Chips a esta escala são essenciais para várias aplicações, desde eletrónica de consumo (portáteis, smartphones) até processadores de alto desempenho utilizados em centros de dados para cargas de trabalho de IA e computação avançada.

O seu papel é, também, cada vez mais importante no setor automóvel, sobretudo com o avanço para veículos autónomos e altamente conectados.

Quais as vantagens dos semicondutores avançados?

Os semicondutores avançados oferecem ganhos substanciais em velocidade, eficiência energética e desempenho. Ao integrar mais transístores em nós mais pequenos, permitem processamentos mais rápidos com menor consumo de energia—uma combinação essencial para computação de alto desempenho, dispositivos móveis e aplicações baseadas em IA. Estas eficiências prolongam a autonomia das baterias nos equipamentos de consumo e suportam cargas de trabalho exigentes em centros de dados modernos.

Um setor de semicondutores em constante evolução

O setor global de semicondutores está a transformar-se rapidamente, com novas fábricas e expansões a moldar o equilíbrio entre produção avançada e «legacy». Embora a Ásia continue a liderar em volume, os investimentos na América do Norte—especialmente nos EUA e no Texas—estão a reforçar a capacidade nacional. Os nós avançados impulsionam a inovação em eletrónica, centros de dados e tecnologias automóveis, enquanto os chips «legacy» se mantêm críticos no dia a dia. Em conjunto, estes desenvolvimentos evidenciam a importância estratégica de diversificar a produção e construir cadeias de abastecimento resilientes, capazes de responder à procura atual e futura.